Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
abordagens
(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...

Não basta

⊆ quinta-feira, setembro 22, 2005 por GNM | ˜ 32 comentários »

Não basta na cozinha a loiça por lavar,
Por trás da porta a tábua de engomar,
Fritadeira velha em que já nem frito,
Receita esquecida do meu bolo favorito.

Não basta na dispensa o pote de mel,
Meia garrafa embriagada de moscatel,
Seis pacotes rectangulares de leite,
Um frasco gorduroso de azeite.

Não basta na sala a gravura impressionista,
Os meus cd´s de musica intimista,
Tigela de fruta em cima da mesa,
Livros espalhados e vela acesa.

Não basta na casa de banho o tapete vermelho,
Escova de dentes na prateleira do espelho,
Cabide preto por trás da porta,
Tesoura enferrujada que já nem corta.

Não basta no quarto a cama de madeira,
Roupa suja em cima da cadeira,
Cortinas cor de vinho que tapam a janela,
Almofadas novas e incenso de canela,

Não basta gritar e fazer ouvir o meu grito,
Para todo o sempre, perdurado no infinito,
Não basta ter o mundo inteiro a meus pés!
Basta olhar-te a cada dia e amar-te como és.


32 respostas a Não basta

  1. Marta Says:
    o amor enche uma casa. bjs****
  2. isa xana Says:
    que engracado... eu a visitar-te e ao mesmo tempo estava a ver se tinha comentarios no meu blog e acabaste de passar por la:)

    gostei de passar por aqui,
    o verso final o meu favorito, concerteza!!

    beijito
  3. Luis Enrique Says:
    É verdade, tudo isso näo basta.
  4. António Says:
    Definitivamente, a tua poesia encaixa nos meus gostos.

    Obrigado pela visita ao meu canto.

    Abraço
  5. António Says:
    Ahhh...vou continuar, pois!
    Já tenho mais 2 episódios desta novela "super light" escritos.
    Mas como tenho mais que fazer na vida, não sairão mais do que um par por semana.
    Suspense! eh eh
    Abraço
  6. Paula Raposo Says:
    Objectos, bens materiais não bastam, nem sequer são importantes, quando o olhar e a presença de alguém (mesmo não física), é o que basta!! Muito bonito, gosto imenso. Beijos
  7. Raquel V. Says:
    Recordei-me de velhas histórias... e é preciso que o amor baste... pq senão tudo o resto nos anula...



    -----------
    PS: o blog (petrus) não está parado. Quem o gere por vezes pára... por um pouco, ou por muito tempo. Mas de todos o "Páginas" é o baby, e o "Petrus" o algo mais...
  8. Vivis Says:
    Nem sempre tudo é o todo,
    mas, os detalhes do coração ... vai além.
    Beijos
  9. Anónimo Says:
    Como é verdade!:)
    ******

    Rose
  10. mfc Says:
    O essencial é que importa... e as pessoas estão acima de tudo!
    Então a pessoa especial... essa preenche todos os nossos espaços!
  11. Ermelinda Toscano Says:
    Embora um pouco atrasada, venho retribuir a visita ao meu cantinho. E fiquei surpreendida com este blog. Parabéns! Gosto muito de poesia. Os teus poemas mostram que és uma pessoa sensível, que sabe colocar por palavras os sentimentos (o que não é nada fácil, podes crer!). E tens toda a razão, tudo o que descreves não basta mesmo... é preciso muito mais, sobretudo AMOR... embora algumas dessas coisas nos ajudem a construir a nossa identidade.
  12. Anónimo Says:
    ... que doçura ... que carinho...


    beijos

    CR
  13. amita Says:
    Nesse ritmo alucinante que uma vida cantas, tens razão, não basta, não. Um bjo e uma flor
  14. luisa Says:
    O lirismo contemporâneo há-de ser um dia estudado do ponto de vista sociológico. E os vindouros saberão tanto acerca de nós, hoje! Gosto da poesia que é testemunho, crónica, reflexão. Encontro tudo neste poema. O acessório ganha estatuto de ESSENCIAl. A simbologia é encantatória. Um excelente momento de poesia.
  15. Claudia Perotti Says:
    Eita!
    Como encanta as tuas letras!
    Até sorri no final!

    Beijos
  16. Anjjinho Says:
    Nem mais, saber amar alguém como é, é o que melhor podemos fazer! :)
    (Desculpa esta minha ausência mas estes dias não têm sido fáceis)
  17. Carmem L Vilanova Says:
    Belissimo texto, que transmite grande verdade, meu(inha) novo(a) amigo(a)... vim agradecer-te a tua visita ao meu blog e dizer-te que gostei de tua casa e aqui voltarei sempre, a forma com que escreves me agradou bastante... :o)
    Deixo-te beijos e sorrisos!
  18. Natalie Afonseca Says:
    Uau!!!
    Sem mais palavras:
    "Não basta ter o mundo inteiro a meus pés
    Basta olhar-te a cada dia e amar-te como és "
    Adorei!!!
    Beijinhos
  19. amartejo Says:
    Como num quadro, o que interessa não é o tema, mas a forma como o tratas. Continuo a achar muito interessante e espontâneo
  20. jorgebond'alfangeassunção Says:
    Gonçalo, adorei este poema, não basta escrever, buscar a palavra adequada, a reticência, o paragrafo cortado, etc. Apenas basta olhar em volta e sentir !! Parabéns !!

    PS: Camões, diz-te algo ??
  21. moonlight Says:
    Obrigada pela tua visita ao meu blog. Foi a primeira vez que vim aqui e virei mais de certeza.
  22. aflores Says:
    Não basta. Não só mas também;) Agradeço e retribuo visita ao meu cantinho. Gostei.
  23. Nilson Barcelli Says:
    Há coisas que apesar de nos encherem a casa nos mantêm vazios.
    Bonito poema, principalmente para a visada...
    Abraço.
  24. andrye Says:
    Ola td bem??obrigada p teres visitado o meu blog.o tue ta lindo.adorei este poema,ta fenomenal,diferente!vou continuar a visitar-te.beijinho grande.bom fim de semana.
  25. Valério Romão Says:
    Um bom exercício de paradoxo. Por um lado a contemporaneidade e os seus instantâneos efémeros; por outro, o amor e a sua teimosia previsível de pedir eternidade. Apesar de não ser fã dos últimos dois versos - confesso-me mais apreciador dos despojos do que do eterno - tudo quanto lhe antevém tem um paladar agridoce apreciável. Parabéns. Há poucos blogues de poesia, ainda menos de boa poesia.
  26. Ninguém.Especial Says:
    Muito bem.
    A cada post que passa me surpreendes mais, este é sem dúvida um grande blog poesia
    Continue
  27. Aran Says:
    E não basta mesmo... e somente basta tão "pouco... tudo"... ;)enfim... Passei e gostei, beijinhos
  28. agua_quente Says:
    Só o amor basta. É verdade. A plenitude só aí tem a sua fonte.
    Beijos
  29. I Says:
    muito , muito bonito!
  30. Martuxa Says:
    O amor cobre td, xega pa td, preenche td... viver de amor e com o amor...
    Beijos
    Escreves cd vez mlh se antes era fantástico agr.......
    Beijos
    Sorri
  31. Kita Says:
    Vim retribuir a tua visita ao meu blog... e tive uma agradável surpresa! Os teus textos encerram algo de mágico, as tuas palavras têm beleza. Gostei particularmente deste texto, pela originalidade e pelo último verso. Concordo plenamente contigo, basta amar alguém como essa pessoa é... e nada no mundo pode algum dia superar isso. Beijinhos e continua com a tua escrita, tens talento! :)
  32. Anónimo Says:
    This is very interesting site... »

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