Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
abordagens
(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...
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"Estão a comer-se uma à outra!"

⊆ quarta-feira, novembro 16, 2005 por GNM | . | ˜ 40 comentários »

Invariavelmente, os meus posts batem asas, voando como pássaros livres em direcção a um infinito imaginário, que idealizo alagado de cores, esperanças e vidas impossíveis. A veia poética pulsa, incorrigível, na minha escrita versada, algo que me apraz e, anuncio sem hesitação, não tenciono alterar. Mas hoje vou estancar com ligadura de mágoa a hemorragia lírica, erguer uma muralha de amargura entre mim e o subjectivismo poético que sempre me espreita, e contar um acontecimento real.
A história passou-se em Vila Nova de Gaia. Importante cidade nortenha banhada pelo Douro, reconhecida como entreposto português do Vinho do Porto, de forte desenvolvimento ao nível das industrias vidreira, tanoeira e cerâmica. Berço de escritores e artistas como Almeida Garrett, Diogo de Macedo ou Soares dos Reis. Pois entre os trezentos mil habitantes de Vila Nova de Gaia, tentam viver e estudar duas raparigas de dezassete e dezoito anos a quem vamos chamar Ana e Raquel. As duas jovens conheceram-se ao pertencerem à mesma lista concorrente às eleições para a Associação de Estudantes da Escola Secundária António Sérgio. A cumplicidade foi imediata, a empatia cresceu transformando-se numa amizade profunda que as preenchia. Trocaram experiências, confessaram pecados, revelaram segredos, e numa tarde de Março, o quarto da Ana foi o palco do acto que selou o namoro: o primeiro beijo.
Os dias passaram, as semanas passaram, os meses passaram, e a relação entre a Ana e a Raquel fortaleceu. Ambas acordaram em, num momento oportuno, conversar com os pais acerca da existência de “uma amiga especial”, pois é difícil enfrentar os desafios do mundo sem o apoio dos pais, mesmo com a gigantesca força que se tem aos dezoito anos. Até que poucos dias depois, numa ala quase deserta da escola, a Ana e a Raquel, pensando estar a sós, comprimiram as bocas uma na outra. O beijo foi presenciado por uma auxiliar de acção educativa que berrou imediatamente: “Estão a comer-se uma à outra!”, insistindo em dar voz à crueldade com repetições sucessivas: “Estão a comer-se uma à outra! Estão a comer-se uma à outra!”
Os gritos funcionaram como rastilho. Em poucas horas toda a escola comentava a relação entre as duas alunas. No dia seguinte, uma professora, membro do Conselho Executivo, mandou chamar as duas raparigas e repreendeu-as até às lágrimas: “Se querem ser lésbicas, vão sê-lo para bem longe da escola.” Poucos dias depois, os encarregados de educação de ambas, que permaneciam desconhecedores do namoro, foram convocados para uma reunião com o Conselho Executivo onde lhes foi comunicada a “atitude menos decente das suas filhas.” A Ana e a Raquel não resistiram à pressão. Deixaram de ir às aulas.
E esta era a história que vos queria contar.
Neste mundo que construímos à nossa imagem, temos céu azul, estrelas rutilantes, mares infinitos, poesias, esperanças, paixões… E gente ignorante que odeia tudo quanto difere do seu conceito de normalidade. São gente aparentemente igual a todos nós. Têm família, amigos, profissão. Não conseguimos distingui-los ao olhar para eles. Mas um dia denunciam-se berrando: “Estão a comer-se uma à outra!” Não provocaram que duas jovens de dezassete e dezoito anos estilhaçassem o seu futuro como porcelana, ao deixarem de frequentar a escola. Não, claro que não. Apenas gritaram: “Estão a comer-se uma à outra!” Depois, concluído o horário de trabalho, voltam para casa. Jantam, vêem televisão e dormem um sono descansado.
Ana e Raquel, o que pensam fazer doravante, não sei. Mas o que realmente valerá a pena fazer quando se vive num mundo assim?