Os ponteiros do relógio...
⊆ segunda-feira, agosto 28, 2006 por GNM | Prosa . | ˜ 34 comentários »Os ponteiros do relógio desenham um ângulo recto perfeito que denuncia as nove horas da manhã. A cidade está envolta num perfume peculiar: mescla de enxofre com perfumes baratos e sonhos da noite anterior. Percorro uma rua imunda: beatas, lixo, homens… Tudo um nojo! Num vaivém inútil as pessoas acotovelam-se mutuamente, como se este fosse o último dia das suas vidas. Prefiro este sol suave que me aquece nas manhãs de Inverno, ao sol espesso como mel que escorre sobre mim nas tardes de Verão. Vesti a minha saia de ganga e, quando assim estou vestida, os homens olham-me como se eu fosse um táxi que querem saber se está livre. A minha relação com os homens é simples. Mesmo muito simples: odeio-os a todos! (A única excepção chamava-se João Pedro. Sim, chamava-se, mas já não se chama. A morte roubou-mo a 170Km/h sem aviso prévio. Desapareceu… Ébria simplicidade! Foi a grande história de amor da minha vida e, como qualquer história de amor, poderia contá-la em 3 volumes de 500 páginas cada um. Mas prefiro despachá-la neste par de parênteses, estou farta de sentimentalismos inúteis). Assim, desprezo-os o mais que consigo, e quanto mais o faço, mais eles se entregam a mim. O segredo desta aparente perversão é muito simples: os homens são como o soalho flutuante da sala, se forem bem montados, deixam-se pisar durante dezenas de anos.
Preciso de beber café para me sentir bem desperta. Entro na pastelaria que faz esquina com a avenida do restaurante onde trabalho, e o empregado afivela imediatamente um sorriso parvo nos lábios. Jogo com ele e retribuo o sorriso. O meu sorriso é falso como uma imitação grosseira de Dalí, mas ele nunca se apercebe disso. Está demasiado ansioso para observar pormenores. Gagueja enquanto fala comigo, e a mão, com que transporta perigosamente a chávena de café, é percorrida por um tremor compulsivo. É no balcão que acendo um cigarro e inalo profundamente até sentir os pulmões em chamas. Junto a chávena aos lábios, hoje pintados de vermelho bronze. Longe, muito longe, vão os tempos em que a paixão me tingia os lábios de rubro. Hoje, o único rubro que me tinge é o das minhas feridas.
(...)
O empregado da pastelaria fixa novamente os olhos em mim. Aproveito a deixa e esmago bruscamente a beata contra o cinzeiro de vidro fosco, como se fosse uma mulher cruel. Lanço um olhar misterioso, viro as costas e saio.
Excerto de um conto