Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
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(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...

simples sabor da água límpida

⊆ sábado, janeiro 14, 2006 por GNM | . | ˜ 47 comentários »

os homens medem-se pelos gestos
todas as cores que derramam
são absorvidas pela tela da vida
escondem-se por trás de títulos e vitórias suadas
escondem-se por trás de bens
efémeras dádivas
na hora do crepúsculo todos estaremos nus
o meu crepúsculo é o teu crepúsculo
a minha casa é a tua casa
o meu mundo é o teu mundo
tu e eu somos o universo inteiro
falhado como um poema
qualquer poema é um falhanço
se não fosse um falhanço não seria poema
antes o fervor líquido de duas bocas comprimidas
consagrando a insolência dos corpos em chamas

os únicos lábios que beijámos foram os das nossas feridas

somos a desordem da ordem podre
somos ordem
eucaliptos enfileirados
amor de infinitas reticências
amor que não está morto
amor que não está vivo
tu és apenas tu
eu sou apenas eu
amor é apenas amor
ideia
não se pode aprisionar nas algibeiras
não tem alfandegas nem fronteiras
nem palavras nem barreiras nem maneiras
ébria simplicidade

soterraste a chave da última gaveta de mim
mar salgado perdido para sempre
a verdade não mergulha em água doce
foi ferida por um leito espinhoso
respira na alma nua atingida pelo fogo
sufoca-me na garganta o grito de reinício
como se a vida não existisse para além da tua carne
indefinição do leito abstracto

onde tudo acaba tudo recomeça

retiro os escombros do peito
e construo dentro de mim uma nova casa
com vista para o impossível
mas os tijolos sangram
como se estivessem a ser utilizados
para a construção de um túmulo
jamais
estou mais vivo que a própria vida
direi à morte quando vier
de mansinho ao meu encontro
durante os próximos cem mil anos

caminho pelas palavras para um eu desconhecido
só quem sabe o que é
pode escolher o que quer ser
não quero saber o que sou
caso seja alguma coisa
o desconhecimento é a minha única verdade


47 respostas a simples sabor da água límpida

  1. blue note Says:
    Não preciso dizer-te o prazer que é visitar-te e devagarinho, beber as tuas palavras. Como escreves! Como traduzes bem os sentimentos, as vivências, a vida!
    E terminas de uma forma genial: o desconhecimento é a minha única verdade. Quem dera que todos pensassem assim. Seria o motor para tanta coisa...
    Beijos para ti e obrigada pela tua visita.
  2. angelis Says:
    Comentar as tuas palavras, que dão forma vida e cor e moldam este poema...muito dificil. Mas não é dificil deixar-me embalar, abraçar pelo que elas transportam e nos fazem sentir. Beijos e um excelente fim de semana.
  3. dreams Says:
    palavras tão fortes e tão intensas...
    gostei muito do teu cantinho na blogosfera.
    beijo *
  4. lena Says:
    embalo-me nos sabores das tuas palavras,
    imagino-as únicas,
    numa tela cheia de cores

    e encanto-me com o poema que saí dentro de ti, cheio de emoção

    beijinhos meus

    lena
  5. Miss X Says:
    Este poema é um carrossel... Repleto de altos e baixos!
  6. Martuxa Says:
    E prontos é de perder o fôlego... =P
    Sorrisos com beijinhos
    =P
  7. spartakus Says:
    Hum...boa noite. Minha e do Deumus.
  8. Leonoretta Says:
    enfim, gonçalo, alguma desilusão por aquilo que a humanidade apresenta porque sabes que ela é capaz de melhor se quiser.

    se quiser, gonçalo, se quiser.

    abraço da leonoreta
  9. Aran Says:
    Está magnifico e profundo!!! Gostei, melhor ainda... adorei! Beijinhos
  10. Paula Raposo Says:
    Nada saber...tentar descobrir, aproximarmo-nos...tão bom! Um poema cheio de força, este!! Beijinhos
  11. Cacau Says:
    Gostei, mas gostei mesmo muito!
    Ficou-me nas mãos: "os únicos lábios que beijámos foram os das nossas feridas"

    Beijo grande,

    Cacau
  12. amartejo Says:
    Todas as imagens são fortes e algumas muito bonitas.
  13. A.na Says:
    sabes...e eu comovo-me
    a ler-te.

    Não sei se estou num
    recomeçar...ou sempre no
    meio de algum acabar.

    Abraço-te Gonçalo.
  14. menina graça Says:
    Vê-se nos seus versos que pensa muito nos problemas do mundo (exterior e interior). Muita profundidade naquilo que escreve.
    Bjs
  15. Sparkling Says:
    O poema está magnifico!
    Tem um excelente começo de semana!
    ~*~
  16. Neith Says:
    A força das palavras que eclodem com tanta intensidade...magnifico! Um beijo enorme
  17. SusanaV Says:
    deixas-me sempre sem palavras ...
    porque ao ler as tuas, acho que nao e necessario dizer mais nada.

    Beijo enorme
  18. nina Says:
    caminho pelas palavras para um eu desconhecido
    só quem sabe o que é
    pode escolher o que quer ser...

    Gonçalo é magnifico!
    beijo grande e muito carinho
  19. pluma(princesavirtual) Says:
    Por momentos perdi o fio á meada...demasiada coisa. Mas encontrei-a no fim do poema :) bjs recatados da Princesa
  20. ≈♥ Nadir ♥≈ Says:
    Como sempre, gosto da leitura que nos proporcionas.
    passei por aqui para te deixar votos de uma boa semana e ver as novidades.
    Bjx
  21. greentea Says:
    ONDE TUDO ACABA TUDO RECOMEÇA
    eu diria
    "é a partir das maiores derrotas que se constroem as maiores vitórias"
    não sei quem disse mas tanto importa que fosse Simone de Beauvoir ou Blixten em "África Minha" um dos filmes que mais me marcou, em certa época.
    Bjs
  22. carla Says:
    realmente belo o que vejo aqui. Belo dia para vc.
  23. Clitie Says:
    Os tijolos sangram na reconstrução...

    Bjk
  24. badger Says:
    Vai ser um pouco difícil comentar agora...
    Realmente o fim será o início... mas o desconhecido é não raras vezes desconfortante!!
    Enfim...
  25. Mitsou Says:
    Li o poema de um fôlego. Belíssimo. E tão verdadeiro!

    Beijinho e votos de uma óptima semana
  26. Claudia Perotti Says:
    Encontro-me em cada letrinha tua.
    Adorei o texto!
    Boa semana, menino!
    Beijinhossss
  27. Samartaime Says:
    «Caminhamos pelas palavras para» onde? Cem mil anos de desassossego em cada palavra!
    Abraço!
  28. ze_das_loas Says:
    "os únicos lábios que beijámos foram as nossas feridas..." guardo este verso. Muito bem. Abraços
  29. TMara Says:
    forte e com uma certa fúria ( no bom sentido). Dizes: «sufoca-me na garganta o grito(...)» e nós podemos constatar k a tua garganta não está nada sufocada. Está bem potente. Bjocas. Há novidades nas minhas 3 casas ....
  30. Passaro Azul Says:
    Numa única palavra, FABULOSO!
    É dificil dizer muito mais...
    Deixo o meu abraço carinhoso e parto a meditar nas palavras lidas.
    Um beijo :)
  31. Natalie Afonseca Says:
    Gnm, como sempre as tuas palavras são esbeltas!! Sério, gosto tanto de te ler!! Fantástico!!
    Há certas "linhas" que acredito que poderiam ter sido escritas por mim, percebes? Poraque sinto-as tão bem!! :)
    "os homens medem-se pelos gestos
    todas as cores que derramam
    são absorvidas pela tela da vida"

    Um beijinho a sorrir :)*
  32. Betty Branco Martins Says:
    "simples sabor da água límpida

    Tão límpido - profundo e verdadeiramente belo este teu poema.

    Beijinhos
  33. zita Says:
    Por vezes, e de acordo com o que vivemos, as palavras tocam-nos e embatemos nas nossas verdades.
    Gostei...
  34. BloodyMary Says:
    O desconhecimento é a única verdade e também a mais real, embora possa ser desconfortante.

    "os únicos lábios que beijámos foram os das nossas feridas"

    Soberbo...não há outra palavra.

    Um grande beijo para ti*
  35. Insolente Says:
    com que entao a insolencia dos corpos em chamas... insolencia é comigo caro colega e corpos em chamas tambem o poderá ser mas nao queria entrar por aí... é de se respirar bem antes da leitura para se chegar ao fim... ora entao um grande bem haja
  36. Ivan Says:
    ESTE É UM RECADO a todos os que participaram, de algum modo, em minha história no mundo dos blogs. Alguns têm minha admiração e carinho (embora virtuais) mais intensos, naturalmente. Entretanto, a todos os que caminharam comigo por todo este tempo no Vertentes de Mim, mesmo que tenha sido somente algumas quadras, têm grande valor, pois, relendo alguns antigos comentários, tenho ótimas lembranças. ESTOU REPUBLICANDO alguns textos no Vertentes de Mim, o que deverá acontecer até começo de abril, quando o blog completa seu primeiro ano no ar. E você está sendo convidado a relembrar (o conhecer o que ainda não leu) parte dessa história. UM BEIJO EM SEU CORAÇÃO!!!!! Ps.: tomei vergonha na cara e te adicionei em minha lista de links!
  37. lazuli Says:
    Não digo nada, porque tudo já foi dito.
    Apenas digo..
    Olha, nem sei.
    Entendes?
  38. A.na Says:
    Por onde andas?
    Saudades de ti...
  39. A.na Says:
    Estás aqui...ainda bem
    que me ouviste.
    Não vou dizer que estás triste,
    não,isso não digo outra vez!

    Só te posso deixar o meu
    abraço...meu querido Gonçalo.
  40. Paula Raposo Says:
    Uma semana sem ler um poema teu?!Estou com saudades! Verdade. Vá...Beijos.
  41. Leonoretta Says:
    obrigado pela visita gonçalo. trouxe-te uma nostalgia boa com as rimas. que bom!

    abraço da leonoreta
  42. pormar Says:
    Sim , medimo-nos pelos nossos "gestos". É um poema de grande fôlego. Tudo de bom.
  43. amartejo Says:
    Gostei muito deste, é uma espécie de avalanche...Até sempre.
  44. Raquel V. Says:
    Gostei muito do ritmo. Excelente :) Ao meu jeito.
  45. Anónimo Says:
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