Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
abordagens
(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...

De um pedaço de terra...

⊆ quinta-feira, setembro 21, 2006 por GNM | . | ˜ 33 comentários »

De um pedaço de terra perdido no mar
nascem Ecos inesgotáveis. Ecos de
palavras ou rochedos, esquecidos, duros, gastos.

Ecos de Inverno, de Verão, de outras estações
do ano ainda por inventar. Ecos de
amor, ou qualquer coisa parecida
que já tenha sido inventada.

Ecos sem rédeas, transparentes, livres,
que não se importam com regulamento do condomínio.

Ecos de montanhas, Ecos de verdades, ou saudades…
Ecos que estremecem como o mundo, quando
uma mulher de saltos altos dança de cabelos ao vento.

Ah… se eu pudesse mais uma vez ver-te dançar…

Talvez um dia eu abra a janela, grite o teu nome, e te encontre!
Damos as mãos e caminhamos até ao cais,
onde um barco sem casco, nem leme, nem proa,
está à nossa espera para zarpar.

E eu esqueceria todas as cartas que não respondeste.

Mas por agora a janela está fechada.
E eu… talvez me cale.
Mas os Ecos, esses…

Os Ecos erguer-se-ão!


Distantes da nossa cidade...

⊆ quarta-feira, setembro 06, 2006 por GNM | . | ˜ 39 comentários »

Distantes da nossa cidade,
onde a neve se derrete como as palavras
expostas ao tímido sol de Inverno,
as manhãs têm a beleza de quem não conhece o sofrimento.

Com restos de granizo sobre a cara,
amanhecemos deitados sob a árvore do tempo
e assistimos ao lento cair do céu.

A noite foi quente e estranha:
Fomos visitados por duendes que não existem!
Aterraram numa barca azul e ofereceram-nos
bagas, nozes com mel, canela e erva doce.

Não sei se foi hoje, talvez tenha sido ontem.

Vamos oferecer aos Deuses as lágrimas futuras!
E por entre as florestas que aconchegam os rochedos do
mar vermelho, e por ente montanhas de vento e flores
queimadas pelo gelo, vamos contemplar
eternos nasceres-do-sol.

Aqui não existem pedintes de esquina-em-esquina,
nem jornais diários com notícias mais tristes
que nasceres-do-sol.

Aqui existe apenas tudo isto, e tudo isto que é
tão pouco para tantos, é tudo o que
quero… para sempre…


Os ponteiros do relógio...

⊆ segunda-feira, agosto 28, 2006 por GNM | . | ˜ 34 comentários »

Os ponteiros do relógio desenham um ângulo recto perfeito que denuncia as nove horas da manhã. A cidade está envolta num perfume peculiar: mescla de enxofre com perfumes baratos e sonhos da noite anterior. Percorro uma rua imunda: beatas, lixo, homens… Tudo um nojo! Num vaivém inútil as pessoas acotovelam-se mutuamente, como se este fosse o último dia das suas vidas. Prefiro este sol suave que me aquece nas manhãs de Inverno, ao sol espesso como mel que escorre sobre mim nas tardes de Verão. Vesti a minha saia de ganga e, quando assim estou vestida, os homens olham-me como se eu fosse um táxi que querem saber se está livre. A minha relação com os homens é simples. Mesmo muito simples: odeio-os a todos! (A única excepção chamava-se João Pedro. Sim, chamava-se, mas já não se chama. A morte roubou-mo a 170Km/h sem aviso prévio. Desapareceu… Ébria simplicidade! Foi a grande história de amor da minha vida e, como qualquer história de amor, poderia contá-la em 3 volumes de 500 páginas cada um. Mas prefiro despachá-la neste par de parênteses, estou farta de sentimentalismos inúteis). Assim, desprezo-os o mais que consigo, e quanto mais o faço, mais eles se entregam a mim. O segredo desta aparente perversão é muito simples: os homens são como o soalho flutuante da sala, se forem bem montados, deixam-se pisar durante dezenas de anos.
Preciso de beber café para me sentir bem desperta. Entro na pastelaria que faz esquina com a avenida do restaurante onde trabalho, e o empregado afivela imediatamente um sorriso parvo nos lábios. Jogo com ele e retribuo o sorriso. O meu sorriso é falso como uma imitação grosseira de Dalí, mas ele nunca se apercebe disso. Está demasiado ansioso para observar pormenores. Gagueja enquanto fala comigo, e a mão, com que transporta perigosamente a chávena de café, é percorrida por um tremor compulsivo. É no balcão que acendo um cigarro e inalo profundamente até sentir os pulmões em chamas. Junto a chávena aos lábios, hoje pintados de vermelho bronze. Longe, muito longe, vão os tempos em que a paixão me tingia os lábios de rubro. Hoje, o único rubro que me tinge é o das minhas feridas.
(...)
O empregado da pastelaria fixa novamente os olhos em mim. Aproveito a deixa e esmago bruscamente a beata contra o cinzeiro de vidro fosco, como se fosse uma mulher cruel. Lanço um olhar misterioso, viro as costas e saio.


Excerto de um conto


Vou pintar as paredes...

⊆ sexta-feira, agosto 18, 2006 por GNM | . | ˜ 38 comentários »

Vou pintar as paredes do quarto de verde-seco. Qualquer cor é preferível ao amarelo deslavado que agora as tinge, e aviva todo um passado que quero enterrar. Duas a verde-seco, as outras duas a branco; o tecto… branco também.
A cama, a estante, o tapete, sem esquecer os lençóis, são memórias de uma tempo que preciso de esquecer.
- Levem tudo isto daqui!
- ?!
- Sim. Levem tudo! Deitem no lixo, façam o que quiserem, mas levem isso daqui.
Deixo as janelas abertas e as cortinas corridas enquanto dois homens assustados montam a mobília nova. Não importa o frio, não importa a chuva: preciso de devolver ar fresco a esta existência bafienta.
Na sala, a roupa nova ainda ensacada olha-me desde o lado direito do sofá; retiro as etiquetas e visto-me de presente. Gostava de olhar-me ao espelho, mas não sou capaz. Assusta-me ideia de não conseguir ver nada reflectido do outro lado. Tenho um medo terrível que o espelho denuncie que já não existo, pois a cada dia que passa me sinto a sumir gradualmente, como a chama de uma vela que se apaga lentamente.
Estou tão cansada de mim própria, que tenho vontade de fingir-me outra pessoa.
Tudo terá de mudar… Sim! Doravante nada poderá continuar a ser como dantes. Não preciso sequer que seja melhor, quero apenas que seja diferente. Tudo diferente.
Adeus Andreia!


Excerto de um conto.


Entre as minhas paredes...

⊆ sexta-feira, agosto 11, 2006 por GNM | . | ˜ 37 comentários »

Entre as minhas paredes de gelo e a tua voz melíflua,
tranquei as portas com as mãos roxas, cadavéricas,
deixando cada parte de mim numa escuridão bafienta.

Tranquei-me não por ti, não por mim, não por ninguém.
Tranquei-me porque me tranquei.
Apenas me tranquei.

Amo a escuridão e o silêncio, na ausência dos teus lábios,
na ausência do teu fogo, que é minha juventude.

Somos amantes que só sobrevivem porque se desafiam constantemente,
como rivais eternos que se fitam nos extremos da grande mesa rectangular.
No fim, perderemos os dois.

E se em mim a dor se transformasse em pedra…
Ficaria para sempre imóvel!
Eternamente preso a este instante obsessivo.
Refém não da dor, mas de mim mesmo:

Já nenhuma dor me possui. Eu sou própria dor.

A sede de infinito não é uma estrela, mas um buraco negro,
onde mergulhei e me perdi para sempre…
na ânsia do veludo da plenitude.

E as portas… as portas estão bem como estão:
Trancadas! Escondendo ruínas e sangue.

Nunca mais soube das chaves.


Tenho a vida...

⊆ domingo, julho 23, 2006 por GNM | . | ˜ 40 comentários »

Tenho a vida atravessada de palavras.
Estou cansado de todas as
palavras que atracam às linhas do meu caderno.

Das obscuras, indecifráveis, abandonadas na lama.
Das frescas, vigorosas, fingidas a dois tempos.
Das odiosas, carnais, duras como pedras.

Desapareceram as borboletas do meu caleidoscópio poético.

Sempre as mesmas forças destruidoras
e as mesmas estrofes esfoladas e as mesmas paisagens ardidas.
E outra vez e outra e uma vez mais.

As palavras nascem-me gastas, enrugadas,
como o teu rosto quando já não te lembrares do meu nome.

Tudo é deserto, abafado, irrespirável,
mar infinito de areia fervente.
Tudo é gente arrastando-se
por montanhas de luto e vales de sombra.

Sejam palavras sólidas ou amargas,
sejam enevoadas ou melífluas,
estou farto.

Enjoei o alfabeto inteiro.


A noite avança...

⊆ sábado, julho 15, 2006 por GNM | . | ˜ 53 comentários »

A noite avança com a suavidade de um lençol de seda negra
que me envolve, me seduz, me perturba.
Onde, sujo e esfarrapado, escrevo imperturbável.

Para trás ficaram rostos gastos.
Corpos de coração esquecido em qualquer parte.
Ruas que são folhas manuscritas com as nossas vidas.
Esquinas, ruelas, becos, tatuados com este fluir inevitável.

Ainda viverá alguém nesta cidade?
Ou estará oca, vazia, como a casa abandonada no topo da montanha…

Gente, gente e gente, passa e repassa diante dos meus olhos.
Mas tu, quem os meus olhos nunca viram, despertas
as palavras e estilhaças o silêncio em que aprendi a viver,
espelhando na transparência o horizonte que invento
e a vontade de pegar-te nas mãos e perder-me
contigo enquanto todos dormem.

A minha vida tem sido somente uma espera interminável,
por alguém que é apenas um fugaz pressentimento
.


E se pudesses permanecer...

⊆ quinta-feira, julho 06, 2006 por GNM | . | ˜ 32 comentários »

E se pudesses permanecer interminável
e eternamente trajasses páginas despidas e páginas despidas
com o delírio minucioso dos teus dedos…

Beijando versos como quem morde um pêssego
e sente o sumo escorrer pelo queixo como se fosse o mar
que avassala o mundo e traz consigo inconfidências
que abandona na areia molhada.

Arde-te o sangue, incandescente.

Querias da vida um caminho de fogo e leveza,
uma história de amor de beleza,
um poema sem fim...


Já mal me recordo das...

⊆ quinta-feira, junho 29, 2006 por GNM | . | ˜ 50 comentários »

Já mal me recordo das noites em que o sangue fervilhava
e nos moldávamos como barro nas mãos de um oleiro universal.
Como dois troncos de oliveiras centenárias que, torcidos, se entrelaçam.
Tacto. Espasmos. Asas.

Somos um poema por terminar.
Não! Não podemos ser um poema, somente um amontoado de versos indecifráveis.
Talvez sejamos dois gatos em sétima existência. Esgotámo-nos!
E a água gelada cai de onde menos esperamos.

Tentas semear-me…
Mas na terra infértil que sou nascem apenas cactos
e os espinhos atravessam-me a alma.

«Não te demores…»

Uma guilhotina de prata amputou-me as pernas.
Quero-te. Mas não consigo caminhar até ti.

Conheces o aroma das horas quando a espera se estilhaça em mil cacos?
Conheces-me?

Tenho frio. O meu peito é um bloco de gelo com arestas cortantes.
Duro. Pesado. Imóvel.

Posso dar-te as mãos? As minhas mãos estão quentes, ainda.
Exibem as cicatrizes dos rasgos por onde fugiu a minha inocência.
Estendo-as para ti, mas não as vês…

Ainda que o acaso nos negue, permaneço.

Dás-me as tuas mãos?

Sabias que matei um homem?
Empurrei-o para a frente de um comboio de saudade. Morreu desmembrado.
Porquê? Porque sim.

Conta-me… Diz-me como são as tuas mãos…
Desmembrado, não consigo poetizar-te as mãos.

Não sei se sou deus ou o diabo.
Serei as sílabas de uma palavra por inventar?
Talvez não passe de uma criança confusa.
Um objecto sem utilidade.
E gente? Não posso ser gente?

Por cada folha que te escrevo morro um pouco mais…
As folhas que te escrevo são rasgadas num gesto brusco de dentro de mim.
Rasga-me cada palavra; cada sentimento.

Quero parar de te escrever.

Continuo a escrever-te.

Odeio-me.


Mas há sempre...

⊆ quinta-feira, junho 22, 2006 por GNM | . | ˜ 50 comentários »

Mas há sempre um dia em que as nossas profundas ilusões estilhaçam como cristal ao fogo. Um dia em que toda a nossa pequenez, toda a nossa pueril ingenuidade vem à tona. Um dia em que, repentinamente, tudo muda sem aviso prévio. E os nosso olhos esvaziam-se como a maré, perdem-se as ondas, desaparecem os barcos, escondem-se os peixes… E no final resta apenas um deserto, onde o tempo, lento, nos submete a uma tortura lancinante.
(...)
Onde estou? Por que é que esta gravura impressionista, desenhada pelo bolor entranhado nos resquícios do estuque, não pára de rodopiar sobre os meus olhos? Bem no centro deste tecto está uma lâmpada cilíndrica, que me ilumina com uma luz amarelecida; não cessando de me fitar desafiante, como se estivesse a troçar da minha tentativa falhada de fundir as mil lâmpadas do quotidiano.
Lembro-me de engolir duas caixas de comprimidos, não com a fúria vulcânica de uma suicida, mas com a elegância de uma princesa que sorve um banquete com talheres de prata. Um a um, saboreei-os com volúpia majestosa, até sentir uma tempestade levantar-se nas esquinas do meu estômago e, finalmente, atravessada por uma íntima satisfação, cedi ao peso das pálpebras.
(...)
Tenho o coração desmoronado, como uma casa em ruínas. Vivo num intervalo de tempo irreal. Esse intervalo persegue-me loucamente: É a soma das horas em que cheguei cedo demais à vida de alguém, multiplicada pelas horas que cheguei atrasada.
Se não me mataram os comprimidos, mata-me este silêncio pálido. Sempre detestei estes silêncios vazios, tão cheios de tudo o que está por dizer. Mas agora é tarde demais para dizer o que quer que seja. Tudo vai ficar guardado dentro de mim para sempre, não sou mais que um cofre de ilusões falhadas. A maior delas foi acreditar que o amor é não apenas uma verdade, mas a verdade. Não há verdade nenhuma no amor, é apenas uma ilusão que passa, como um poema ou uma musica que nos envolve, e nos faz crer que somos únicos no mundo; depois, desaparece como o fumo deste cigarro, mas tudo o resto fica, sempre fica…


Excerto de um conto