Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
abordagens
(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...

Cristal

⊆ quinta-feira, dezembro 29, 2005 por GNM | . | ˜ 40 comentários »

Já cometi tantos erros na vida,
Já perdi tanto tempo.
Havia um menino louro
Com faces rosadas como um irlandês embriagado.
Para onde se vai quando se morre?
Para onde fui?
Talvez a vida seja mesmo assim,
E esteja apenas diferente.


A espuma do fogo

⊆ segunda-feira, dezembro 26, 2005 por GNM | . | ˜ 37 comentários »

Como se fosses um poema em braille, toquei-te.
Estremeceste como sinal de transito ao vento.
Fitei os teu lábios tingidos de rubro e beijei-te,
Beijei o passado, a eternidade, o momento…

Semicerraste os teus olhos negros fuzilantes,
Tens na boca o sabor de um cálice de poesia,
Esquecidos do mundo, perdidos como amantes,
Reinventámos o equinócio duma noite sem dia.

Os nossos olhos lançam chamas voluptuosas,
Somos a esperança, a paixão, o êxtase, o prazer,
Libertos, sem pudor, em sinfonias silenciosas,
Reduzindo o universo aos nossos corpos a arder.

O teu coração, esse musculo cadente e sangrento,
Que desafia a noite com o brilho de rubi afogueado,
Faz-me esquecer que o mundo é um beco lamacento
Que percorremos aos círculos num caminhar atolado.


Adeus...

⊆ quarta-feira, dezembro 21, 2005 por GNM | . | ˜ 39 comentários »

Tudo está morto. Incorrigivelmente morto.
Como pode morrer algo que nunca viveu?
Desperto a meio da noite, triste e absorto,
Foi um sonho que tive. Nada aconteceu.

Foste embrulho cúbico em papel fantasia,
Enfeitado com um laço de todas as cores,
A felicidade é assim: intermitente e fugidia,
São sempre passageiros os amores e dores.

Nunca fiz mais nada que renascer e morrer.
Renasço nu. Morro com a roupa de Domingo,
O êxtase é uma torrente para além do prazer,
Como posso sobreviver se só eu os distingo?

Não suporto este silêncio dos gritos da alma,
Mantenho-me firme no silêncio das emoções,
Num afago terno, a noite aconselha-me calma:
“É sempre intrincado o regresso das perdições.”

Dormes. Eu afasto-me de ti em bicos de pés,
Sonhas. Os sonhos são só teus. Apenas teus!
Caminho para a porta, desconheço quem és,
A palavra mais triste é a palavra “Adeus…”


Tu

⊆ segunda-feira, dezembro 19, 2005 por GNM | . | ˜ 25 comentários »

Eclipsaste com um sorriso as tempestades violentas,
E com um simples toque das tuas mãos cariciosas,
Transformaste o céu de nuvens espessas e cinzentas,
Num veludo azul, com delicadas nuvens plumosas.

Emprestaste ao vento o teu perfume de maresia,
Em redor pairam aragens do teu aroma refrescante,
Esse teu cheiro é sonho, é esperança, é poesia,
O sol intimidou-se perante o teu olhar cintilante.

Fizeste do mundo uma contemplação maravilhosa,
E em cada vale, em cada rio, em cada colina…
Pairam reflexos suaves da beleza despretensiosa,
Que resplandece de ti e generosamente os ilumina.

Roubaste-me as lágrimas. São orvalho prateado!
Refizeste cada uma das tristezas numa nova flor!
Partamos agora. O caminho é longo e acidentado,
Até chegarmos à perdição dos eucaliptos do amor.


Caminho

⊆ sexta-feira, dezembro 16, 2005 por GNM | . | ˜ 20 comentários »

Estou descalço, seguro os sapatos na mão,
Esmago cacos de vidro com pés sangrentos,
Sorriso afivelado, sem tempo para lamentos,
Enquanto percorro o meu caminho da ilusão.

Ora avanço e digo sim, ora paro e digo não,
Os meus dias ora são azuis, ora são cinzentos,
Sempre assaltados por mil e um pensamentos,
Temo rasgar o peito com o bater do coração.

Como é doce sentir-me vivo, mesmo sem norte,
Como gostaria de ser o decisor da minha sorte,
E acabar de repente, enquanto a vida assim corre.

Dama de negro, leva-me agora para o teu forte.
O segredo da imortalidade é desejar a morte,
Só quem deseja loucamente a morte nunca morre.


Fragmentos do incêndio

⊆ terça-feira, dezembro 13, 2005 por GNM | . | ˜ 35 comentários »

Hoje amanheci pouco depois das oito horas,
É a manhã inaugural da minha segunda vida.
Sorri, estava esquecido do sabor das auroras,
Fui o amante secreto da noite enlouquecida.

Estóico, levantei-me e vesti-me rapidamente,
Com minúcia, retirei as etiquetas da roupa nova
Que ofereci, ontem, a mim próprio de presente,
Sabendo que a auto estima precisava de prova.

Onde estará o menino inocente de cabelo louro…
Sem aviso prévio, sumiu-se sem deixar rasto,
Ao perceber que a vida não era o tal tesouro,
Mas antes um mero acaso, absurdo e nefasto.

O sentido foi desfalecendo a pouco e pouco,
Aventurei-me em mil e uma migrações lendárias,
A medo, olhei-me de lado. Encontrei-me louco,
Dançando a valsa agridoce das almas solitárias.

Sonhos caíram mortos. Metralhados no peito.
Horizontes foram estilhaçados como porcelana.
Abro todas as janelas, encosto-me ao parapeito,
Devolvo ar fresco a esta vida mais que profana.

Queria encontrar-te. Antes fui encontrado por ti,
Espreitavas-me no teu silêncio desde Domingo,
E eu, com a cegueira de quem procura, não te vi,
Escrevi que me vingaria… é agora que me vingo.

Hesitei. Sim, é verdade. Não tenho medo de nada.
Mas qual o louco que no meu lugar não hesitaria?
Histórias doces de descoberta da alma encantada
Só em filmes americanos ou ensaios de poesia.

Mas não vou pensar mais. Basta! Agora vou viver!
O sábio, o verdadeiro sábio, foi o Alberto Caeiro,
Que olhou a mundo à sua volta com olhos de ver.
Também eu quero olhar assim o mundo inteiro!

Viver, apenas. Os nossos destinos estão traçados:
Hospedes cadavéricos de uma morgue citadina,
Ao som do tinir metálico dos bisturis esterilizados
Misturado com o riso dos estudantes de medicina.


Segredos

⊆ quinta-feira, dezembro 08, 2005 por GNM | . | ˜ 43 comentários »

Guardei-os na minha alma. Trancados na gaveta do fundo,
Mas não suportei deter provas duma existência desfalecida,
(Sei que o mundo é um homem triste de cabeça descaída),
Sou apenas mais um reles habitante do planeta moribundo.

Para quê guardar segredos maiores que o próprio mundo?
Eram meus. Só meus. Eram maiores que a própria vida,
(E quanta pequenez existe nesta vidinha embrutecida…),
Hoje, lancei-os cimentados às águas de um rio profundo.

Doravante o mundo será uma mulher fogosa e fascinante,
E eu serei outro homem. Leve como pluma esvoaçante,
Sou livre! Quebrei os pregos dos pulsos, soltei-me da cruz.

Aventura, aqui me tens! Sou o teu mais recente amante,
Dá-me asas, deixa-me voar sem fim, até ao sol radiante,
Vou ter com ele e encandeá-lo com o brilho da minha luz.


Barqueiro

⊆ domingo, dezembro 04, 2005 por GNM | . | ˜ 40 comentários »

Como barqueiro enlouquecido nos mares gelados,
Despedaço gelo com débeis remos de madeira,
O frio invade-me. O sol é miragem passageira,
Violentamente, sigo por quadrados já quebrados.

Rasgo mares jamais por alguém antes rasgados,
Fios de água gelaram na minha face sobranceira,
A minha pequena barca é frágil, mas vai ligeira,
Leva-me para mares que já julgava sepultados.

Respiro fundo. Há pouco oxigénio pairando no ar.
Esta minha raiva feroz obriga-me a não parar,
Esqueço as tuas tempestades, os meus cansaços.

Perdido, avanço. Não sei até onde vou chegar,
Mas avanço. Estou encolhido, mas vou continuar,
E já em chamas, irei erguer-me e abrir os braços.


Procuro-te...

⊆ sexta-feira, dezembro 02, 2005 por GNM | . | ˜ 19 comentários »

Ondeiam-me chamas de melancolia,
Procuro-te com uma ânsia crescente,
Por todo o lado vejo gente diferente,
Gente sorridente, simpática, vazia…

E tu? Estás oculta como por magia,
Quero-te! És esguia como serpente
Que aparece e desaparece de repente,
Após cuspir o vil veneno da fantasia.

Mas sou prisioneiro da minha liberdade,
Todos os dias acordo sem vontade…
É amargo não amar, não ser amado.

Mas ainda tenho saudades da saudade,
Pela noite deito-me com o peso da verdade,
Caindo como soldado de chumbo tombado.


Assassina de rosas

⊆ quarta-feira, novembro 30, 2005 por GNM | . | ˜ 29 comentários »

Passa uma rapariguinha que carrega azevinho,
Beberico este café com aquelas boas maneiras
De quem sorve suavemente um copo de vinho,
Enquanto a destemida rapariga assalta as roseiras.

Com as pequenas mãos, quebra o caule espinhoso,
Assassinando, a cada momento, uma rosa inocente,
Com o mesmo esplendor triunfante e orgulhoso,
Com que beberico o meu café amargo e quente.

Rasga um sorriso revelador de agradecida alegria,
Cada vez que consegue ouvir o pequeno estalido
Denunciador que a rosa já esteve viva, uma dia…
Antes de alguém, por tanto a amar, a ter destruído.

Minutos depois as restantes rosas choram sem fim,
Aquelas pequenas mãos, mortíferas como garras,
Esqueceram-se que o lugar das flores é no jardim,
Preferindo guardá-las cadavéricas dentro de jarras.