Hoje amanheci pouco depois das oito horas,
É a manhã inaugural da minha segunda vida.
Sorri, estava esquecido do sabor das auroras,
Fui o amante secreto da noite enlouquecida.
Estóico, levantei-me e vesti-me rapidamente,
Com minúcia, retirei as etiquetas da roupa nova
Que ofereci, ontem, a mim próprio de presente,
Sabendo que a auto estima precisava de prova.
Onde estará o menino inocente de cabelo louro…
Sem aviso prévio, sumiu-se sem deixar rasto,
Ao perceber que a vida não era o tal tesouro,
Mas antes um mero acaso, absurdo e nefasto.
O sentido foi desfalecendo a pouco e pouco,
Aventurei-me em mil e uma migrações lendárias,
A medo, olhei-me de lado. Encontrei-me louco,
Dançando a valsa agridoce das almas solitárias.
Sonhos caíram mortos. Metralhados no peito.
Horizontes foram estilhaçados como porcelana.
Abro todas as janelas, encosto-me ao parapeito,
Devolvo ar fresco a esta vida mais que profana.
Queria encontrar-te. Antes fui encontrado por ti,
Espreitavas-me no teu silêncio desde Domingo,
E eu, com a cegueira de quem procura, não te vi,
Escrevi que me vingaria… é agora que me vingo.
Hesitei. Sim, é verdade. Não tenho medo de nada.
Mas qual o louco que no meu lugar não hesitaria?
Histórias doces de descoberta da alma encantada
Só em filmes americanos ou ensaios de poesia.
Mas não vou pensar mais. Basta! Agora vou viver!
O sábio, o verdadeiro sábio, foi o Alberto Caeiro,
Que olhou a mundo à sua volta com olhos de ver.
Também eu quero olhar assim o mundo inteiro!
Viver, apenas. Os nossos destinos estão traçados:
Hospedes cadavéricos de uma morgue citadina,
Ao som do tinir metálico dos bisturis esterilizados
Misturado com o riso dos estudantes de medicina.