Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
abordagens
(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...
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O segredo da noite

⊆ domingo, abril 23, 2006 por GNM | . | ˜ 38 comentários »

Olho o céu, apenas a frieza da noite escura!
Quem roubou as estrelas, deixando o céu apagado?
Esta noite, laquearam a veia audaz da loucura,
Fugiram as estrelas, escondeu-se a ternura,
E o céu é um velho castelo abandonado.

Segredando, chamei um anjo de asas prateadas,
Beleza serena, gestos dóceis, rosto suave e rubicundo,
Fitei-o com olhar velhaco de raposa experimentada,
E cravei o punhal na sua garganta ensanguentada
Deslizando-o suavemente, num gesto profundo.

As asas são minhas, elevo-me, estou a voar!
E a janela do meu quarto vai ficando mais pequena,
Num só sopro acendo o céu: Luz, estrelas, luar,
A brisa da loucura reapareceu, pairando no ar,
E a noite reluz, numa brancura de açucena.


Amo-te todos os dias II (continuação)

⊆ segunda-feira, abril 17, 2006 por GNM | . | ˜ 33 comentários »

Eu quero olhar-te nos olhos,
E ouvir o silêncio dos teus segredos
E a valsa das tuas emoções,
E arrepiar-me quando juntas aos lábios
A garrafa de água que o frigorifico gelou,
E chamar-te vaidosa ao descobrir-te
Maravilhada com os encantos do espelho,
E sentir os olhos presos ao teu decote em V,
E olhar-te com um nervoso miudinho
Enquanto lês as folhas de papel que escrevinhei
Como se fosses um César que com um mero gesto
Pode despedaçar as minhas pretensões de escritor,
E sorrir ao ouvir-te insultar a balança,
E segredar-te ao ouvido que és lindíssima
E não apenas para te confortar
Mas porque és mesmo lindíssima,
E ver-te sorrir com os olhos,
E ouvir os quinhentos decibéis do teu riso
Quando gostas do vinho que bebes ao jantar,
E ser surpreendido pelas tuas vontades súbitas
De nos amarmos nas posições mais esquisitas
E nos sítios mais improváveis,
E estar sozinho em casa
Mas falar alto como se estivesses a ouvir-me,
E ouvir-te dizer que me queres fazer feliz
E dizer que adoro o teu bolo de canela
E tu dizes, rindo, que me contento com pouco,
E dizer-te que pouco mais preciso
Quando te tenho a meu lado para enfrentarmos
Juntos esta aventura de crescer e voar
A que chamam vida…


Pedras

⊆ terça-feira, abril 11, 2006 por GNM | . | ˜ 41 comentários »

Pedras. Reconheço-me nas pedras.
Nuvens violentamente negras e pedras
amontoadas de um castelo que ruiu.

O sol fundiu-se, a cidade está afónica.
O calor dos passos acesos
alenta este silêncio de vão de escada.

Musica longínqua, remota.
Um bêbado cambaleante fermenta na voz:
«Já não temos tempo…»

Calo-me
à luz implacável do tacto frio da ausência.

Calam-se as palavras,
seca a tinta da caneta,
é o grito do caos.

E assim perdemos tudo…


Fragmento

⊆ sábado, abril 08, 2006 por GNM | . | ˜ 26 comentários »

Somente mergulho no amor,
Porque a vida é uma torrente de cascos,
Um ecoar de cristal, é uma brisa que passa…


Amo-te todos os dias

⊆ sexta-feira, março 31, 2006 por GNM | . | ˜ 68 comentários »

Eu quero olhar-te nos olhos,
E ver-te afastar delicadamente o cabelo da cara
Enquanto encostas a cabeça à ombreira da janela da sala,
E agarrar as tuas mãos febris
Com as minhas mãos geladas
E dizer-te que as nossas mãos
São asas com que podemos voar
Para lá da pequenez desta prisão crepuscular,
E mergulhar na magnitude do mistério.
E ouvir-te dizer que voar é impossível
E dizer-te que entre nós não há impossíveis,
E ver-te procurar a serenidade num cigarro
E esconder-te o isqueiro debaixo da manta
Cor-de-fogo que cobre o sofá velho,
E ver-te ir à última gaveta do móvel de carvalho
E acender o teu cigarro com um dos infindáveis
Isqueiros que lá guardas,
E ir à última gaveta da tua alma
E de lá arrancar o teu enigmático sorriso.
E fingir que não percebo que enquanto nos beijamos
Me roubas, sub-repticiamente, o comando da televisão,
E falar-te acerca da rapariga das tranças ruivas
Que aparece, na magia dos meus sonhos,
Sentada no banco do jardim da lua,
E sorrir aos teus ciúmes de alguém que não existe,
E fingir que estou a tossir mais que aflito
E ver-te esmagar bruscamente o cigarro contra o cinzeiro
E refugiares-te no chá de cereja,
E ouvir-te elogiar as chávenas rubro incandescente,
Que trouxeste da viagem ao México,
Só porque sabes que não gosto daquelas chávenas,
E ver-te despir para tomar banho
E tocar-te como quem lê um poema em braille,
Como se o teu corpo fosse, simultaneamente,
Uma encruzilhada onde me perco
E um mapa onde me volto a encontrar,
E reter-te por séculos nos meus braços,
E fugir quando alcanças o chuveiro ameaçador,
E esperar ansiosamente que termines o teu banho
E beijar o calor da tua pele húmida quando regressas,
E sorrir ao olhar falsamente ressentido
Que lanças desde o sofá onde estás deitada
Com o cabelo molhado,
E ver-te ceder ao peso das pálpebras
Quando as horas pesam séculos sobre os olhos,
E adormecer junto a mim,
E ser percorrido pela profunda paz
Que emerge da perfeição daquele momento,
Perfeição que, felizmente, não tens:
Gosto de ti, não apesar dos teus defeitos,
Mas com os teus defeitos. Todos.
E tocar-te uma vez mais,
Mas querer também deixar-te dormir,
E acordar antes de ti,
E ir à padaria buscar pasteis de nata
E ver-te deliciar com eles
Sem te importares de semear a cama com migalhas
Enquanto eu me delicio com o teu sorriso,
E ver-te beber sumo de laranja
Segurando o copo com as duas mãos,
E pressentir que te conheço há sete vidas
E que afinal tudo isto faz sentido
Porque tu existes,
E perceber a sorte que tive em te encontrar
No meio de seis biliões de seres humanos.
Eu quero olhar-te nos olhos,
E…


Avidez inquieta

⊆ domingo, março 26, 2006 por GNM | . | ˜ 40 comentários »

Mundo: Obsessivo. Pestilento. Sério demais.
Erguido à luz desse pecado original.
Sejamos humanos: Errantes e banais,
Nos teus becos não há nada de fatal.
Por que não aprendeste a sorrir, homem primitivo?
E a alcateia que somos teria um uivar diferente:
Submerso o mundo amargo e intempestivo,
Nós, eternas crianças num mundo surpreendente.
Será do dia em que foi inventado?
Um dia pintado a cinzentos depressivos,
Um dia trémulo, ausente, demorado…
Seriedade, de onde jamais partiremos vivos.
E nos flancos de outro dia de semblante sério,
Sufocado pelo tédio dos dias sempre iguais,
Estilhaça a fadiga e emerge o mistério
Da nossa íntima condição de mortais.
E, vazios, despedimo-nos da vida,
No silêncio de um dia: O dia final.
Cosmos, quartzo, existência esquecida,
Maçada aborrecida… Mais um funeral.
Nem caos nem dúvidas. Tudo simples e claro.
Para quê o árduo desvelo da incerteza?
Esta noite quebro o cálice onde amparo
O orvalho amargo de séculos de tristeza.


Matem os poetas!

⊆ terça-feira, março 21, 2006 por GNM | . | ˜ 66 comentários »

A Daniel Filipe

Nas páginas anteriormente brancas dos livros inúteis,
Nas velhas caixas de recordações de jovens sentimentais,
No tronco apunhalado da árvore centenária do jardim,
Nas últimas folhas dos jornais locais que ninguém lê,
Letras em cadência de verso denunciam a sua existência.
Em letras pequenas
Do tamanho do amor, da esperança, da saudade,
Versos anunciam que uma pequena alcateia de mulheres e homens,
Guiados por corações sem rédeas,
Escreveu sentimentos proibidos
Em horas de solidão,
Inventando uma subversão a que chamam poesia.
Uma alcateia de mulheres e homens livres,
Com fome e sede de infinito,
Soube dar vida a letras esquecidas.
Basta-lhes um sonho.
A noite.
A paixão.
A beleza de um olhar reluzente.
Armados com caneta e papel,
Camuflados com um olhar humilde
Que disfarça uma insuportável dignidade,
Mulheres e homens inundam a terra árida do mundo,
Com palavras viciosas sob a forma de poemas.
É urgente travá-los antes da contaminação colectiva,
Antes que a epidemia se espalhe
E a poesia se torne numa doença universal.
Justificam-se medidas drásticas.
O presidente que decrete o estado de sítio.
Alerta vermelho!
Mobilização geral!
Chame-se o exercito, a marinha,
Ordene-se que os navios de guerra estejam a postos,
Os aviões devem carregar mísseis e voar imediatamente,
As forças de segurança devem procurar cidade-a-cidade,
Vasculhar bairro-a-bairro,
Revistar casa-a-casa.
Sem esquecer as escolas, os cafés, os jardins…
Existem penas exemplares para quem não denunciar os criminosos,
A situação assim o exige.
Está em causa o futuro da Humanidade.
O futuro do sistema económico que construímos,
O futuro dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos,
O futuro das nossas vidas conquistadas com suor e trabalho.
Não se deixem vencer pelo cansaço:
Encontrem-nos!
Só quando conseguirmos eliminá-los poderemos viver em paz.
Num qualquer local desconhecido,
Mulheres e homens perigosos escrevem poemas.
Descurando as suas tarefas sociais,
Semeiam no mundo hieróglifos compadecidos.
É imprescindível intensificar as buscas.
E ao encontrarem esses infames
Esgrimindo verso após verso de caneta em riste,
Não hesitem:
Disparem!
Mesmo que seja amigo de infância:
Disparem!
Colega de escola:
Disparem!
Jogaram juntos com a mesma bola:
Disparem!
Ofereceu-vos da sua comida quando tinham fome:
Disparem!
É possível que sintam uma compaixão tolerante
Quando os descobrirem indefesos perante a vossa espingarda.
Não se deixem comover:
Apertem o gatilho e calem-nos para sempre!
Para bem do mundo,
Procurem a alcateia de mulheres e homens que inventaram a poesia.
É preciso encontrá-los antes que seja tarde...


Perto da fronteira solar...

⊆ sexta-feira, março 17, 2006 por GNM | . | ˜ 34 comentários »

Perto da fronteira solar,
ainda sob a luz condenada da noite,
escrevo sobre esse silêncio febril
na penumbra de uma chama tremida,
essa tempestade de águas turvas,
esses olhos ardidos pela insónia
convertidos em cegueira sem limites:
Escrevo sobre o amor.

É-se enfeitiçado como um bosque
onde sopra a brisa floral da Primavera,
incendiado como um bosque inundado
pela secura do sol espesso de Verão,
desnudado como um bosque suspenso
alcançado pela luz dourada do Outono,
condenado ao frio glaciar como um bosque
invadido pela brancura da neve do Inverno,
derrubado como um bosque prisioneiro
de um novo condomínio de luxo.

É-se rasgado e devorado como carne.

Tudo não passa de um clamor vertiginoso,
de uma miragem no horizonte embriagado,
obsessão desenhada pelas nuvens,
perfume enresinado dos pinheiros,
sempre passageiro e perpétuo,
queimado pela inocência demoníaca
dos corpos alagados de suor.

Mas escreve-se sobre amor como se existisse!
Como se fosse algo detido na palma da mão,
pedido emprestado, roubado, comprado,
demonstrado no vértice das palavras,
dnunciado com arrebatação do interior
do bosque inóspito que somos.

Tudo são feridas encerradas
nos aneís de fogo que assombram
as paisagens por conquistar.
Na linha universal do horizonte
está escrito que o mecanismo puro
a que chamamos amor,
não é mais que um fugaz acaso,
uma alucinação errante,
condenada desde sempre
ao esquecimento.


Instante elevado

⊆ sábado, março 11, 2006 por GNM | . | ˜ 46 comentários »

Tudo são chamas, talvez enganos.
Daqui a pouco, quando amanhecer,
Vou incendiar orvalhos, oceanos…
Golpear o peso torpe dos anos,
Secar orquídeas… Deixar de ser.

Não quero acompanhar-me mais.
Tic-tac tic-tac… eterno. Impaciência.
Incerteza: Afundar? Atracar ao cais?
Afundar? Sempre! Atracar? Jamais!
Antes a morte que a sonolência.

Morrer é beijar o infinito.
Para onde vou o céu é vermelho!
Inferno, quero-te real e não mito,
O infinito e eu somos um só grito,
Beijar o infinito é beijar o espelho.

Mundo? É só um cemitério girante.
Em mim não existe último desejo,
Tudo será arrebatamento, doravante,
Instante! Afirma-te, lendário instante.
Beijo-te infinito. O primeiro beijo…


Route 66

⊆ segunda-feira, março 06, 2006 por GNM | . | ˜ 39 comentários »

Ignição. O súbito uivar do motor,
Nada. Apenas a certeza da incerteza,
Sempre tão certa como o desamor,
As pontas dos dedos denunciam o tremor,
O infinito binómio esperança e tristeza.

Saint Luis, no teu céu perde-se o arco,
Na garrafa vidrada deixo a minha mensagem,
Que navega o Mississipi como um barco,
E em busca do infinito eu sonho e parto.
E a garrafa navega para longe desta margem.

No Park-in Theatre foge-me a realidade,
Hoje, a solidão assola o Garden Motel,
As paredes, entranhadas de humidade,
Denunciam décadas de amor e saudade
Da fantasia deslocada dos corpos mel.

Bridgeport tem a magia da cidade perdida,
Ninguém! E se lá te encontrasse?
Na cidade abandonada e esquecida
Vivem séculos de memória e de vida,
Que ruiriam no momento em que te amasse.

No Texas fita-me o sol fervente,
Escorre-me pelo rosto o suor salgado,
O Cadillac Ranch está aqui, á minha frente,
A arte, sempre igual, é sempre diferente,
Glenrio tem a secura do sonho abandonado.

Novo México, a imensidão da recta sem fim,
Eu, o deserto, e os postes de electricidade,
Mergulho na solidão, esqueço-me de mim,
Olho o espelho retrovisor: Existo sim!
Fervilham os sorrisos de ansiedade.

Arizona, descubro empedrados arvoredos,
Flagstaff devolve-me a gente, a multidão,
No Grand Canyon o sol nasce entre os rochedos,
Será um sonho? Não há consciência nem medos,
O fim está para breve… Não… Agora não!

Na California pressinto o aroma de maresia,
Steinbeck chamou-lhe a «terra da morte»,
Mil e uma cidades abandonadas… fantasia,
Ensaio as primeiras linhas de poesia…
Continuo vivo. Será azar? Será sorte?

A Route 66 chegou ao fim. Está terminada…
Los Angeles espreita-me de relance, ansiosa,
Breverly Hills… atravesso a cidade plastificada,
Santa Monica, o Pacífico é a beira da estrada,
Resta-me a memória da viagem audaciosa…

É ter fome, é ter sede de infinito…


A carta

⊆ quarta-feira, março 01, 2006 por GNM | . | ˜ 45 comentários »

Vida, cansei-me de ti.
O meu cálice do tédio transbordou.
Toda tu és apenas um enorme
Vácuo sem qualquer significado.
Estou farto das esperancinhas graciosas
Com que me manténs preso aos teus grilhões,
Enfastiado da tua pobre realidade,
De onde não posso fugir
Sem ser através destas letrinhas que,
Bem sei, sempre o soube,
Nada valem.
Nada.
Absolutamente nada.
Esta noite pensei em todos os sonhos
A que tu, madrasta, me impeliste.
E sorri.
Por que não me fizeste outro?
Empregado de escritório
Que sonha com o subsidio de férias?
Por que não me deixaste ser o mendigo
Cujo maior sonho é ter um par de sapatos?
Este noite, Vida, não suporto as tuas dúvidas pueris,
Estou cansado das tuas problemáticas existenciais
De adolescente de treze anos
Com o rosto semeado de borbulhas.
Não Vida, não.
Estás enganada.
Não tens treze, tens vinte seis.
Mas talvez devêssemos agir,
Uma última vez, como adolescentes.
Como aqueles adolescentes que namoram
Durante o intervalo grande,
(Aquele de trinta minutos ente as aulas
De matemática e educação física),
Nas alas desertas do liceu.
Até que um dia,
Ele percebe que é bem mais útil
Aproveitar o intervalo grande
Para jogar à bola com os amigos,
Até porque se não o fizer vai perder, para o Gordo,
O lugar na equipe de futebol da turma.
E ela percebe que aquela história
De ter hora marcada para o jogo dos beijos
Pode ser, por vezes, aborrecida.
Muito aborrecida.
Talvez devêssemos dar um tempo.
E eu, descansaria por uns tempos
Nos braços desconhecidos da morte.
E tu, dar-te-ias a alguém diferente de mim,
Alguém que te amasse de verdade,
Alguém que não merecesse ter-te perdido.
Aquele amante a quem tu abandonaste
Segundos antes de confessar
O grande amor que o percorria.
Sabias que esse amor está até hoje a ameaçar
Explodir-lhe o peito como uma granada?
Vá lá, dá-lhe uma última oportunidade…
Vida, antes olhava-te, e o brilhozinho
Bem no centro dos teus olhos, seduzia-me.
Eras fogosa. Fascinante…
Toda tu eras cor, e forma, e sonho, e luz.
Esta noite, olho-te, e o que vejo?
Um vazio. Apenas um vazio.
Estou cansado das tuas euforias,
Dos teus contentamentos impassíveis,
Das tuas noites em branco
Com a face colada à vidraça
À espera que algo que não sei o que é.
Estou farto das tuas mentirinhas,
Dos teu jogos de sorte e azar,
Farto das lágrimas que me enevoam
Os olhos. Se ao menos estivessem esburacados…
Talvez cegando consiga ver.
Vida, esta noite vou sair até de madrugada,
Não me telefones, não me procures,
Se conseguires, nem sequer penses em mim.
E quando eu regressar, cambaleante,
Se algum dia eu regressar,
Vou dormir no sofá verde-seco da sala.
Vida, acredito que sim,
Acredito que não tenhas culpa.
Talvez eu tenha mudado…
Talvez esteja diferente…
Mas estou farto,
Farto de esperar pelo que nunca acontece,
E como bem sabes,
Eu nunca gostei de esperar.
Perdoa-me Vida,
Mas esta noite,
Eu deixei de te amar.


Aresta do sonho

⊆ terça-feira, fevereiro 28, 2006 por GNM | . | ˜ 14 comentários »

Esta noite trepei pelas esquinas da estrela cadente,
E ali te encontrei, sentada no banco do jardim lunar.
As flores estremeceram, sorriste, voaste levemente,
Deste-me a mão, agarrei-a, e ensinaste-me a voar.

Viajámos para o inverso da languidez dos sentidos,
Com um só beijo, inundámos de fogo o céu escuro,
Silêncio de cristal… Navegam dois loucos perdidos,
Duas borboletas gigantes, em busca do pólen puro.

Unimos forças e invertemos a rotação deste mundo,
Flutuando como as barcaças nos canais de Veneza
Atingimos o sol, trespassámos o dourado profundo,
Com as doces pás da fantasia sepultámos a tristeza.

Até que se apoderou de mim a vil sensação do medo,
Num irreconhecível instante, temi não conseguir voar.
Trriiim!!! O despertador uivou estilhaçando o enredo,
Que maçada decepcionante, ter que voltar a acordar.


O mundo inteiro

⊆ quinta-feira, fevereiro 23, 2006 por GNM | . | ˜ 44 comentários »

O mundo inteiro. Todo! É meu. Mesmo sem ser meu.
Vive dentro deste corpo escanzelado o mundo inteiro,
O nosso mundo invicto: O único. O real. O verdadeiro.
Aquele que nunca ninguém viu, e nunca ninguém leu.

Nos mares do meu sangue nadam peixes prateados,
Navegam barcas com velas branco-sujo triangulares,
No céu do meu peito envolto em cores crepusculares,
Voam pássaros exóticos em voos livres e inesperados.

Na estrada árida das minhas mãos, uma rapariga ruiva,
Vestida com solidão, sorri aos fantasmas e aos medos,
Trago a lua ofuscante - hoje cheia - na ponta dos dedos,
E a alcateia, do bosque inóspito da alma, dança e uiva.

Vivem nas árvores dos meus braços os filhos rejeitados,
Dragões de garganta afogueada, e corajosos cavaleiros,
Os bandidos cobardes, e os mais bravos dos guerreiros,
Descansam na sombra amarga os amantes mal amados.

Na terra dos olhos dorme a mendiga do metro de Picoas,
Esvoaçam sobre o lago das lágrimas borboletas coloridas,
Mergulham os perigosos assassinos, e os tristes suicidas,
Mergulho eu, mergulhas tu, mergulham todas as pessoas.

Atravessa o rio salgado da minha boca um barco a remos,
As ruínas de Palatino estão nas curvas dos meus ombros,
Tudo o que resiste e existe em mim são só os escombros,
Só as saudades da saudade dos beijos que já não demos.


Sede

⊆ sábado, fevereiro 18, 2006 por GNM | . | ˜ 51 comentários »

Solidão nua! Apenas as estrelas, imóveis e rutilantes,
Me lançam olhares transparentes no céu semiescuro.
E eu, o homem sempre seguro de sorrisos confiantes,
Desvaneço aqui, nos braços da noite do dia mais duro.

Despedaçam-me saudades de tudo o que desconheço.
Sede! Sede de água fresca. Só me servem vinho tinto!
Estou seco, vazio, como um rio sugado no sol espesso,
Ferve o meu leito. Sê a água! Sê tudo o que pressinto!

És tu! Pressinto-te muito mais que um quadro bonito,
Muito mais que a doce cegueira dum breve devaneio,
Escrevo. Escreverei sem fim, nas sombras do infinito,
Para lá dos teus olhos… Que renasço quando os leio.

Renasço, durante o sono pacifico, como uma crisálida,
Tranco no sótão vinte e seis anos de sangue e mágoa,
A minha sede rescreve-se, mesmo que tímida e pálida,
Para ti, cristalizo esta noite em versos escritos na água.


Alucinação

⊆ terça-feira, fevereiro 14, 2006 por GNM | . | ˜ 45 comentários »

Hoje, catorze de Fevereiro de dois mil e seis,
Permaneço. E nada me interessa realmente.
Nem Pessoa, nem Baudelaire, regras ou leis,
Nem sonhos, nem esperanças, vidas ou gente.

Verdade? Não! Quero reinventar-me incessante,
A verdade é tão sólida como o sangue das veias,
Nesta esfera vã, grande, pequena, azul, girante,
Nada é verdadeiro, nada é falso, tudo são ideias.

Não acredito em sábios, somente na loucura,
“Criança prodigiosa que não sabe ortografia”?
Prodigiosa é a brisa que voa na noite escura
E invade o meu peito com o perfume fantasia.

Acredito em ti. Acredito em tudo o que dizes.
Tudo em ti é teu. É real. Mesmo sem ser real.
A realidade ora são trevas, ora são dias felizes,
Hoje galerias solitárias, de arquitectura ogival.

Depois, no silêncio cru, quebramos a parede,
Olho-te. Vejo-te. Vês-me? Mas onde estamos?
Senta-te. Bebe deste cálice, mata essa sede,
Descansa de ti sob a sombra dos meus ramos.

Tens olhos cor-de-amêndoa suave, misteriosos,
São iguais, tão perfeitamente iguais aos meus,
Doces, geométricos, transparentes, audaciosos,
Mas são tão diferentes dos meus, são os teus.

Teus. E apenas teus, como o são estes versos,
Sabes rasgar o céu! Quem te ensinou a voar?
Como consegues unir dois mundos dispersos?
Como consegues fazer-me continuar a sonhar?

Irrealidade, bem sei. Mas pouco me importa…
Pouco me importa porque sei que nada é real!
Só galerias solitárias, com paredes sem porta,
O resto são delírios, as minhas flores do mal.

Como dramaturgo russo, amor e dor na alma,
Em que viajem mais doce fui hoje embarcado…
Foi uma viagem estranha, ora feroz, ora calma,
Desembarco no vértice do horizonte alucinado.


Corrente...

⊆ domingo, fevereiro 12, 2006 por GNM | . | ˜ 15 comentários »

E assim, correspondendo ao desafio da Lique, a corrente das manias chegou a este blog!

As regras do jogo

"Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Além disso, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue."

Eu não gosto de hábitos. Se não soubermos viver, toda a nossa vida acaba por se tornar um hábito. Prefiro fazer algo uma única vez e sentir o que faço, do que fazer algo por hábito maquinal sem apreciar o momento.
Manias? Não sei se assim as posso chamar...
Assim, vou revelar cinco coisas que gosto de fazer, e que a maioria das pessoas não faz - acho eu!
Ficaram excluídos os verdadeiros prazeres secretos. Aqueles que são meus. Apenas meus. É que perder as chaves, a carteira, o telemóvel, ou mesmo o juízo, acontece todos os dias a muita gente e ninguém se importa. Mas perder os secretismo dos pequenos prazeres, não é fácil.

1- Durmo com as janelas abertas, mesmo quando está frio. O sono assim é mais revitalizante.
2- Adoro chá de canela. Inspira-me! Bebo dois ou três chás de canela por dia.
3- Gosto de andar à chuva. Percorre-me uma sensação de liberdade sempre que as gotas da chuva me escorrem pelo rosto, especialmente quando são as primeiras chuvas de Outono.
4- Gosto de repetir uma palavra vezes sem conta, de forma rápida e seguida. Até que chega um momento em que a palavra perde o sentido e a densidade. É nesse momento que a palavra se revela na plenitude, e consigo compreendê-la verdadeiramente. Mas as palavras são com as pessoas: Algumas não se revelam facilmente…
5- E falando em pessoas, perco-me em conversas intermináveis com a mulher que está todos os dias na escadas do metro de Picoas. Está velha e gasta. Diz-me que foi a mulher mais bonita do seu tempo. E eu acredito. Não sabe ler nem escrever. Não entende nada de política, nem de filosofia, nem literatura, nem economia. E é das pessoas mais sábias que o autor destas palavras conhece. Ganhem coragem, e quando passarem por lá falem com ela. Vão surpreender-se…

E já está.
Foi mais fácil do que eu pensava…
Bem, vou ter de escolher cinco cúmplices para continuar a corrente… Cá vai:

A Paula
A Cacau
A Neith
A Drems
A Lésse


Continuem a sorrir!


Jardim do Éden

⊆ sexta-feira, fevereiro 10, 2006 por GNM | . | ˜ 31 comentários »

Descobri que não existo realmente.
Sou apenas fruto da minha imaginação.
Toda a minha vida não é mais que um jogo imaginário.
O meu mundo, escrevi-o ao meu gosto.
Vivo num paraíso particular:
O meu Jardim do Éden.
Sim! Escrevi-o ao meu gosto,
Escrever é a única coisa que me prende,
A única coisa que me liberta,
Aqui, no mundo dos homens…
É a sensação mais lasciva e hipnótica que já vivi.
É arder no fogo da minha imaginação.
Queriam-me um cidadão bem comportado?
Queriam-me aparente, frívolo, domesticado?
Jamais serei rato da gaiola de testes de ninguém.
Renasço sempre que o meu cérebro
Explode como uma granada.
Não temo a insanidade.
A cada dia que passa a folha do calendário cai
Como as folhas das árvores no Outono,
E a cada novo dia que olho o calendário
Sei que posso estar a olhar para a data da minha morte.
Livrem-me da neblina cinzenta do quotidiano,
Da vidinha dos dias insípidos, secos, descolorados…
Na minha vida quero que tudo seja mítico,
Ou que tudo esteja morto.
O meu mundo envergonha o arco-íris,
A realidade é sépia como uma fotografia velha.
Nada é tão decepcionante como viver a realidade.
Basta de pensar nela.
Vou apagar a luz e abrir o portão...


Miragem Rodopiante

⊆ quinta-feira, fevereiro 02, 2006 por GNM | . | ˜ 23 comentários »

No meu mundo os candeeiros não brilham na rua,
Não são precisas fórmulas, nem planos futuros,
Eclipsou-se o sol, despedaçou-se em cacos a lua,
Elevaram-se as pontes, derrubaram-se os muros.

Não se sabe tudo, sabe-se apenas o suficiente,
Com um archote dourado queimou-se a certeza,
Paira no ar o perfume pueril da loucura resistente,
Sorve-se um cálice na alegria, sorri-se na tristeza.

No meu mundo poetizo-te à noite, secretamente,
Arde-me o sangue em labaredas desengonçadas,
E os meus olhos observam-me a arder, friamente,
Devoram-me dicotomias infinitas e inconfessadas.

A fantasia silenciosa renasceu, trajada de bailarina,
As estrelas comovem-se com tais gestos afinados,
Consagrando a dança mais pura, suave, cristalina,
Celebrando a alma, no mais límpido dos bailados.

Tocarei este violino, até que as cordas se rasguem,
Quero enlouquecer o tempo do teu bailado sem fim,
Poetizar-te, até que as palavras cruas me engasguem,
Até que as chamas me sorvam vivo, até fugir de mim.


Vigília

⊆ segunda-feira, janeiro 30, 2006 por GNM | . | ˜ 26 comentários »

Pousaste as armas e abandonaste-te à dor,
Julgas-te só, perdida numa floresta maliciosa,
Na tua pele, pálida como uma magnólia em flor,
Desliza a lamina cortante de uma dor silenciosa.

Irradia dos teus olhos a tristeza envergonhada,
Daquelas que se descobrem ao virar da esquina,
Ao tropeçar numa miragem, suave e adocicada.
Crueldade, a que a vida nos impele, nos destina.

Eu estou aqui. Nunca estiveste só, minha querida,
Vou secar as tuas lágrimas com todo o meu calor,
Serei a água fresca que corre nos rios da tua vida,
Serei a esperança que te traz de volta o esplendor.

Serei o pão da tua mesa sempre que tiveres fome,
Serei o fogo flamejante que te aquece na noite fria,
Serei o ar puro que respiras, que em ti se consome,
Serei o amigo recôndito que te abraça ao fim do dia.


Violeiro

⊆ quinta-feira, janeiro 26, 2006 por GNM | . | ˜ 32 comentários »

Sou um velho violeiro. Construo o último violino.
Reflexo de décadas de mil mágoas esconjuradas,
Ásperas como abismos de encostas escarpadas,
Num regresso à realidade, cruel como o destino.

Eternamente adiado, agora inevitável e repentino,
Materializam-se, em série, as imagens desfocadas,
Stradivarius é um mito diluído em águas passadas,
Esta é a obra derradeira, de som perfeito, cristalino.

Ora forte, perfeitamente profundo, grave e cavernoso,
Ora leve, ligeiramente ondulante, agudo e misterioso,
Capaz de fazer quebrar o cristal das vidas audaciosas.

Será o violino perfeito: obsessivo, exacto, luminoso…
Fruto de goivas, escopros, plainas, e rigor minucioso,
Eternamente nessas tuas mãos, suaves e fervorosas.