Não sei o que queres dizer com glória, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. Claro que não, até que eu te diga. Quero dizer "aí tens um belo argumento que te arruma!"
Mas "glória" não significa um belo argumento que te arruma
, objectou Alice.
Quando eu uso uma palavra, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, ela significa o que eu decidir que significa, nem mais nem menos.
O problema é, disse Alice, se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.
O problema é, disse Humpty-Dumpty, quem manda. Apenas isso.

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas




rascunhos
de
abordagens
(eventualmente)
literárias



GNM


Nasci muito perto do fim dos anos 70. O meu nascimento aconteceu às primeiras horas de um dia gelado de Dezembro, e, desde aí, jamais consegui libertar-me do frio que se fazia sentir naquele dia. A normalidade foi algo que durante toda a vida inconscientemente ansiei, mas sempre recusei. Em criança ela espreitava-me durante a noite, olhando-me do lado de fora da janela. E eu, fingindo não a ver, fechava as cortinas...

...

⊆ quinta-feira, dezembro 03, 2009 por GNM | ˜ 4 comentários »

Não sei quem seria
Não sei quem serias

Mas esta noite, seriamos alguém


Silêncio

⊆ sábado, outubro 03, 2009 por GNM | . | ˜ 2 comentários »

A grande invenção dos Homens
é o silêncio.

Só o silêncio nos torna predadores,
como felinos implacáveis
que deslizam na selva.

Sem um suspiro,
sem o estalar das folhas secas,
sem uma hesitação,
sem ruído.

Depois de aprendermos a falar,
temos de aprender o silêncio.
Apenas isso.


Das recordações, pouco me resta...

⊆ domingo, setembro 14, 2008 por GNM | . | ˜ 6 comentários »

Das recordações, pouco me resta.
Laqueei todos os pensamentos
enquanto sofucava a boca com as
mãos para não gritar de dor.
Insuportável.

Há ruas que evito.
Há restaurantes, bares, museus...
onde não tenciono mais voltar.
São lugares que me esmagam só por
ter sido contigo que os visitei pela
primeira vez.

Lembro-me de tantas coisas.
Lembras-me tantas coisas.
Lembras-me coisas que acreditava
já ter conseguido esquecer.

Que ninguém me incomode, hoje à noite.
Estou a esquecer-me de ti.
Todo o esforço é pouco, toda
a força não basta.

Como se esquecer-te fosse a
única forma de me reaver por inteiro.

A vida constrói-se para além da nossa vontade.


No meu sonho...

⊆ segunda-feira, dezembro 31, 2007 por GNM | . | ˜ 19 comentários »

No meu sonho estavamos
deitados, num banco de jardim
de verdes mal pintados,
velhos, desgastados, no centro
de uma enorme pedra plana,
sem princípio... sem fim...

Tu e eu... a únicas pessoas

do meu sonho...

Experimentavamos todas as
posições. E esquecemos, por momentos,
o mundo que nos estranha, acanha,
entranha... O mundo de outros tromentos,
de outras paixões.

E debaixo de um céu escuro
enterrámos as armas e sem pudor
nem carmas, experimentavamo-nos
intensamente... Sem passado nem futuro,
só tempo presente.

Os teus gemidos, mal contidos,
ecoavam no silêncio.
Tu, corada, excitada, molhada,
perseguida pelos sentidos.

E eu... eu sem saber se era mesmo eu...

E entre suspiros, espasmos, orgasmos,
rimos, choramos, sem saber se
amámos, odiámos, ou
simplesmente... ali ficámos...

Tu e eu... meras personagens do teatro
de marionetas dos deuses...

E as lágrimas de prata, da paixão
ingrata, escorriam-nos pelo rosto.
Beijei as tuas... era agridoce, o sabor.
E por fim caíram naquela pedra
que parecia tão forte, tão pura, tão dura...
E rasgando-a numa fissura,
deram vida, na forma de uma flor.

E agora, acordado, enquanto escrevo,

o meu coração estremece, como se
eu ainda estivesse, dentro de ti...
Mas foi apenas um sonho...
Porque tu partiste...
E nunca mais voltaste.


⊆ sábado, dezembro 15, 2007 por GNM | . | ˜ 10 comentários »







Apenas não me apetece...

⊆ quarta-feira, março 21, 2007 por GNM | ˜ 68 comentários »

Apenas não me apetece escrever.

Abraços...


Quero amar a minha vizinha...

⊆ domingo, janeiro 28, 2007 por GNM | . | ˜ 41 comentários »

Quero amar a minha vizinha em
segredo, enquanto o seu marido não chega.
E mais uma vez e outra e uma vez mais...
E ouvi-la, arquejante, dizer que é perigoso.

Perigoso é passear pelo parque.
Há lá passaros e árvores e flores
e um monte de outras coisas perigosas...

Quero traçar planos. Mas só planos estúpidos.
Enquanto lhe dou outro beijo, debaixo da água quente.
Por que é que o tecto não nos esmaga a cabeça
e não nos mata de vez?

É perigoso passear pelo parque...

Custa-me deixar-te, vivo...
Tantos que morrem e logo eu, o vivo!
Eu! Eu que fiz tudo por tudo para morrer.

E depois desco a rua e tento lembrar-me do teu nome...
Também tens nome, não tens?
Há mulheres com cara de Maria, Joana, ou...
Tu tens cara de Perversa.

Podiamos dar-nos bem, os dois. E passeavamos de mão dada
(mas não pelo parque, porque o parque é perigoso)
e diziamos mentiras.

E amavamo-nos nos lugares mais estranhos e nas
posições mais complicadas...
Até ao fim, das noites, sem fim.

E, por fim, morriamos; cada um de nós na sua eutanásia:
Tu, na nossa cama, enquanto dormias e eu velava por ti.
E eu a sorrir, perante um pelotão de fuzilamento.


É cedo...

⊆ quarta-feira, novembro 22, 2006 por GNM | . | ˜ 64 comentários »

É cedo,
muito cedo para me levantar
e tarde de mais para voltar dormir.

A vida é como estas manhãs ansiosas
asfixiadas entre a brancura do tecto e dos lençóis.

Apenas isto.

E alguns de nós parecem divertir-se tanto…

Esta noite sonhei com um homem que
dizia que só os pobres e tristes
são felizes.

Sou feliz? Diz-me louco dos sonhos! Sou?

Gostava de sentir que estou a caminho de alguma coisa…
Como se estivesse a escrever um livro
em que no final tudo revela o seu sentido.
Tudo acaba bem.

Mas a rotação da Terra é demasiado exacta.
E eu não
(e isto dito desta forma é em si uma exactidão,
e é por tudo isto que não sou exacto).

À minha esquerda há uma janela.
Todos os dias, pela manhã, esta janela.
Todos os dias…

Como se nada de diferente pudesse acontecer.

(Bebo água engarrafada enquanto penso nisto,
- bebo sempre água quando acordo. Sempre.)

Apenas esta janela…
Branca, verde, envidraçada…
Por vezez com gotas de chuva ou de orvalho
Mas sempre, sempre… esta janela.


Canela e Erva Doce

⊆ quarta-feira, outubro 11, 2006 por GNM | . | ˜ 28 comentários »



E no próximo Sábado pelas 18.30, vou estar por aqui. É que a minha amiga Paula Raposo vai ver a sua poesia editada pela Magna Editora. E assim, no Sábado, lá estaremos no lançamento!

Parabéns Paula!!!








Desprendo-me, como um fruto...

⊆ segunda-feira, outubro 02, 2006 por GNM | . | ˜ 33 comentários »

Desprendo-me, como um fruto dos ramos da
árvore esquecida na falésia. O tempo pesa-me e gelou-me
o sangue. A ausência transformou-te em descrença.

Toco-te em sonhos e
acordo com as pontas dos dedos queimadas.

Na falésia dormem, com a cabeça sobre o
braço dobrado, as esperanças de fuga.
Os barcos desfilam, agrilhoados ao mar, exibindo
velas demasiado brancas…
Aqui, no alto da falésia, restam somente
pedras, um sonho ancestral

e a imensa vontade de saltar.

Quando voltares, só tens de percorrer
meio caminho. Não sentirás buracos na
estrada, os semáforos serão todos esperança,
as rotundas estender-te-ão o braço,
os cruzamentos serão desertos.

Por que não voltas agora?
Pela madrugada as viagens são mais breves,
o ar é mais puro, os frutos são
frescos e doces.

Quando voltares vou mostrar-te uma
falésia, onde uma pequena árvore, sozinha,
venceu a dura negritude dos rochedos
.


De um pedaço de terra...

⊆ quinta-feira, setembro 21, 2006 por GNM | . | ˜ 33 comentários »

De um pedaço de terra perdido no mar
nascem Ecos inesgotáveis. Ecos de
palavras ou rochedos, esquecidos, duros, gastos.

Ecos de Inverno, de Verão, de outras estações
do ano ainda por inventar. Ecos de
amor, ou qualquer coisa parecida
que já tenha sido inventada.

Ecos sem rédeas, transparentes, livres,
que não se importam com regulamento do condomínio.

Ecos de montanhas, Ecos de verdades, ou saudades…
Ecos que estremecem como o mundo, quando
uma mulher de saltos altos dança de cabelos ao vento.

Ah… se eu pudesse mais uma vez ver-te dançar…

Talvez um dia eu abra a janela, grite o teu nome, e te encontre!
Damos as mãos e caminhamos até ao cais,
onde um barco sem casco, nem leme, nem proa,
está à nossa espera para zarpar.

E eu esqueceria todas as cartas que não respondeste.

Mas por agora a janela está fechada.
E eu… talvez me cale.
Mas os Ecos, esses…

Os Ecos erguer-se-ão!


Distantes da nossa cidade...

⊆ quarta-feira, setembro 06, 2006 por GNM | . | ˜ 39 comentários »

Distantes da nossa cidade,
onde a neve se derrete como as palavras
expostas ao tímido sol de Inverno,
as manhãs têm a beleza de quem não conhece o sofrimento.

Com restos de granizo sobre a cara,
amanhecemos deitados sob a árvore do tempo
e assistimos ao lento cair do céu.

A noite foi quente e estranha:
Fomos visitados por duendes que não existem!
Aterraram numa barca azul e ofereceram-nos
bagas, nozes com mel, canela e erva doce.

Não sei se foi hoje, talvez tenha sido ontem.

Vamos oferecer aos Deuses as lágrimas futuras!
E por entre as florestas que aconchegam os rochedos do
mar vermelho, e por ente montanhas de vento e flores
queimadas pelo gelo, vamos contemplar
eternos nasceres-do-sol.

Aqui não existem pedintes de esquina-em-esquina,
nem jornais diários com notícias mais tristes
que nasceres-do-sol.

Aqui existe apenas tudo isto, e tudo isto que é
tão pouco para tantos, é tudo o que
quero… para sempre…


Os ponteiros do relógio...

⊆ segunda-feira, agosto 28, 2006 por GNM | . | ˜ 34 comentários »

Os ponteiros do relógio desenham um ângulo recto perfeito que denuncia as nove horas da manhã. A cidade está envolta num perfume peculiar: mescla de enxofre com perfumes baratos e sonhos da noite anterior. Percorro uma rua imunda: beatas, lixo, homens… Tudo um nojo! Num vaivém inútil as pessoas acotovelam-se mutuamente, como se este fosse o último dia das suas vidas. Prefiro este sol suave que me aquece nas manhãs de Inverno, ao sol espesso como mel que escorre sobre mim nas tardes de Verão. Vesti a minha saia de ganga e, quando assim estou vestida, os homens olham-me como se eu fosse um táxi que querem saber se está livre. A minha relação com os homens é simples. Mesmo muito simples: odeio-os a todos! (A única excepção chamava-se João Pedro. Sim, chamava-se, mas já não se chama. A morte roubou-mo a 170Km/h sem aviso prévio. Desapareceu… Ébria simplicidade! Foi a grande história de amor da minha vida e, como qualquer história de amor, poderia contá-la em 3 volumes de 500 páginas cada um. Mas prefiro despachá-la neste par de parênteses, estou farta de sentimentalismos inúteis). Assim, desprezo-os o mais que consigo, e quanto mais o faço, mais eles se entregam a mim. O segredo desta aparente perversão é muito simples: os homens são como o soalho flutuante da sala, se forem bem montados, deixam-se pisar durante dezenas de anos.
Preciso de beber café para me sentir bem desperta. Entro na pastelaria que faz esquina com a avenida do restaurante onde trabalho, e o empregado afivela imediatamente um sorriso parvo nos lábios. Jogo com ele e retribuo o sorriso. O meu sorriso é falso como uma imitação grosseira de Dalí, mas ele nunca se apercebe disso. Está demasiado ansioso para observar pormenores. Gagueja enquanto fala comigo, e a mão, com que transporta perigosamente a chávena de café, é percorrida por um tremor compulsivo. É no balcão que acendo um cigarro e inalo profundamente até sentir os pulmões em chamas. Junto a chávena aos lábios, hoje pintados de vermelho bronze. Longe, muito longe, vão os tempos em que a paixão me tingia os lábios de rubro. Hoje, o único rubro que me tinge é o das minhas feridas.
(...)
O empregado da pastelaria fixa novamente os olhos em mim. Aproveito a deixa e esmago bruscamente a beata contra o cinzeiro de vidro fosco, como se fosse uma mulher cruel. Lanço um olhar misterioso, viro as costas e saio.


Excerto de um conto


Vou pintar as paredes...

⊆ sexta-feira, agosto 18, 2006 por GNM | . | ˜ 38 comentários »

Vou pintar as paredes do quarto de verde-seco. Qualquer cor é preferível ao amarelo deslavado que agora as tinge, e aviva todo um passado que quero enterrar. Duas a verde-seco, as outras duas a branco; o tecto… branco também.
A cama, a estante, o tapete, sem esquecer os lençóis, são memórias de uma tempo que preciso de esquecer.
- Levem tudo isto daqui!
- ?!
- Sim. Levem tudo! Deitem no lixo, façam o que quiserem, mas levem isso daqui.
Deixo as janelas abertas e as cortinas corridas enquanto dois homens assustados montam a mobília nova. Não importa o frio, não importa a chuva: preciso de devolver ar fresco a esta existência bafienta.
Na sala, a roupa nova ainda ensacada olha-me desde o lado direito do sofá; retiro as etiquetas e visto-me de presente. Gostava de olhar-me ao espelho, mas não sou capaz. Assusta-me ideia de não conseguir ver nada reflectido do outro lado. Tenho um medo terrível que o espelho denuncie que já não existo, pois a cada dia que passa me sinto a sumir gradualmente, como a chama de uma vela que se apaga lentamente.
Estou tão cansada de mim própria, que tenho vontade de fingir-me outra pessoa.
Tudo terá de mudar… Sim! Doravante nada poderá continuar a ser como dantes. Não preciso sequer que seja melhor, quero apenas que seja diferente. Tudo diferente.
Adeus Andreia!


Excerto de um conto.


Entre as minhas paredes...

⊆ sexta-feira, agosto 11, 2006 por GNM | . | ˜ 37 comentários »

Entre as minhas paredes de gelo e a tua voz melíflua,
tranquei as portas com as mãos roxas, cadavéricas,
deixando cada parte de mim numa escuridão bafienta.

Tranquei-me não por ti, não por mim, não por ninguém.
Tranquei-me porque me tranquei.
Apenas me tranquei.

Amo a escuridão e o silêncio, na ausência dos teus lábios,
na ausência do teu fogo, que é minha juventude.

Somos amantes que só sobrevivem porque se desafiam constantemente,
como rivais eternos que se fitam nos extremos da grande mesa rectangular.
No fim, perderemos os dois.

E se em mim a dor se transformasse em pedra…
Ficaria para sempre imóvel!
Eternamente preso a este instante obsessivo.
Refém não da dor, mas de mim mesmo:

Já nenhuma dor me possui. Eu sou própria dor.

A sede de infinito não é uma estrela, mas um buraco negro,
onde mergulhei e me perdi para sempre…
na ânsia do veludo da plenitude.

E as portas… as portas estão bem como estão:
Trancadas! Escondendo ruínas e sangue.

Nunca mais soube das chaves.


Tenho a vida...

⊆ domingo, julho 23, 2006 por GNM | . | ˜ 40 comentários »

Tenho a vida atravessada de palavras.
Estou cansado de todas as
palavras que atracam às linhas do meu caderno.

Das obscuras, indecifráveis, abandonadas na lama.
Das frescas, vigorosas, fingidas a dois tempos.
Das odiosas, carnais, duras como pedras.

Desapareceram as borboletas do meu caleidoscópio poético.

Sempre as mesmas forças destruidoras
e as mesmas estrofes esfoladas e as mesmas paisagens ardidas.
E outra vez e outra e uma vez mais.

As palavras nascem-me gastas, enrugadas,
como o teu rosto quando já não te lembrares do meu nome.

Tudo é deserto, abafado, irrespirável,
mar infinito de areia fervente.
Tudo é gente arrastando-se
por montanhas de luto e vales de sombra.

Sejam palavras sólidas ou amargas,
sejam enevoadas ou melífluas,
estou farto.

Enjoei o alfabeto inteiro.


A noite avança...

⊆ sábado, julho 15, 2006 por GNM | . | ˜ 53 comentários »

A noite avança com a suavidade de um lençol de seda negra
que me envolve, me seduz, me perturba.
Onde, sujo e esfarrapado, escrevo imperturbável.

Para trás ficaram rostos gastos.
Corpos de coração esquecido em qualquer parte.
Ruas que são folhas manuscritas com as nossas vidas.
Esquinas, ruelas, becos, tatuados com este fluir inevitável.

Ainda viverá alguém nesta cidade?
Ou estará oca, vazia, como a casa abandonada no topo da montanha…

Gente, gente e gente, passa e repassa diante dos meus olhos.
Mas tu, quem os meus olhos nunca viram, despertas
as palavras e estilhaças o silêncio em que aprendi a viver,
espelhando na transparência o horizonte que invento
e a vontade de pegar-te nas mãos e perder-me
contigo enquanto todos dormem.

A minha vida tem sido somente uma espera interminável,
por alguém que é apenas um fugaz pressentimento
.


E se pudesses permanecer...

⊆ quinta-feira, julho 06, 2006 por GNM | . | ˜ 32 comentários »

E se pudesses permanecer interminável
e eternamente trajasses páginas despidas e páginas despidas
com o delírio minucioso dos teus dedos…

Beijando versos como quem morde um pêssego
e sente o sumo escorrer pelo queixo como se fosse o mar
que avassala o mundo e traz consigo inconfidências
que abandona na areia molhada.

Arde-te o sangue, incandescente.

Querias da vida um caminho de fogo e leveza,
uma história de amor de beleza,
um poema sem fim...


Já mal me recordo das...

⊆ quinta-feira, junho 29, 2006 por GNM | . | ˜ 50 comentários »

Já mal me recordo das noites em que o sangue fervilhava
e nos moldávamos como barro nas mãos de um oleiro universal.
Como dois troncos de oliveiras centenárias que, torcidos, se entrelaçam.
Tacto. Espasmos. Asas.

Somos um poema por terminar.
Não! Não podemos ser um poema, somente um amontoado de versos indecifráveis.
Talvez sejamos dois gatos em sétima existência. Esgotámo-nos!
E a água gelada cai de onde menos esperamos.

Tentas semear-me…
Mas na terra infértil que sou nascem apenas cactos
e os espinhos atravessam-me a alma.

«Não te demores…»

Uma guilhotina de prata amputou-me as pernas.
Quero-te. Mas não consigo caminhar até ti.

Conheces o aroma das horas quando a espera se estilhaça em mil cacos?
Conheces-me?

Tenho frio. O meu peito é um bloco de gelo com arestas cortantes.
Duro. Pesado. Imóvel.

Posso dar-te as mãos? As minhas mãos estão quentes, ainda.
Exibem as cicatrizes dos rasgos por onde fugiu a minha inocência.
Estendo-as para ti, mas não as vês…

Ainda que o acaso nos negue, permaneço.

Dás-me as tuas mãos?

Sabias que matei um homem?
Empurrei-o para a frente de um comboio de saudade. Morreu desmembrado.
Porquê? Porque sim.

Conta-me… Diz-me como são as tuas mãos…
Desmembrado, não consigo poetizar-te as mãos.

Não sei se sou deus ou o diabo.
Serei as sílabas de uma palavra por inventar?
Talvez não passe de uma criança confusa.
Um objecto sem utilidade.
E gente? Não posso ser gente?

Por cada folha que te escrevo morro um pouco mais…
As folhas que te escrevo são rasgadas num gesto brusco de dentro de mim.
Rasga-me cada palavra; cada sentimento.

Quero parar de te escrever.

Continuo a escrever-te.

Odeio-me.


Mas há sempre...

⊆ quinta-feira, junho 22, 2006 por GNM | . | ˜ 50 comentários »

Mas há sempre um dia em que as nossas profundas ilusões estilhaçam como cristal ao fogo. Um dia em que toda a nossa pequenez, toda a nossa pueril ingenuidade vem à tona. Um dia em que, repentinamente, tudo muda sem aviso prévio. E os nosso olhos esvaziam-se como a maré, perdem-se as ondas, desaparecem os barcos, escondem-se os peixes… E no final resta apenas um deserto, onde o tempo, lento, nos submete a uma tortura lancinante.
(...)
Onde estou? Por que é que esta gravura impressionista, desenhada pelo bolor entranhado nos resquícios do estuque, não pára de rodopiar sobre os meus olhos? Bem no centro deste tecto está uma lâmpada cilíndrica, que me ilumina com uma luz amarelecida; não cessando de me fitar desafiante, como se estivesse a troçar da minha tentativa falhada de fundir as mil lâmpadas do quotidiano.
Lembro-me de engolir duas caixas de comprimidos, não com a fúria vulcânica de uma suicida, mas com a elegância de uma princesa que sorve um banquete com talheres de prata. Um a um, saboreei-os com volúpia majestosa, até sentir uma tempestade levantar-se nas esquinas do meu estômago e, finalmente, atravessada por uma íntima satisfação, cedi ao peso das pálpebras.
(...)
Tenho o coração desmoronado, como uma casa em ruínas. Vivo num intervalo de tempo irreal. Esse intervalo persegue-me loucamente: É a soma das horas em que cheguei cedo demais à vida de alguém, multiplicada pelas horas que cheguei atrasada.
Se não me mataram os comprimidos, mata-me este silêncio pálido. Sempre detestei estes silêncios vazios, tão cheios de tudo o que está por dizer. Mas agora é tarde demais para dizer o que quer que seja. Tudo vai ficar guardado dentro de mim para sempre, não sou mais que um cofre de ilusões falhadas. A maior delas foi acreditar que o amor é não apenas uma verdade, mas a verdade. Não há verdade nenhuma no amor, é apenas uma ilusão que passa, como um poema ou uma musica que nos envolve, e nos faz crer que somos únicos no mundo; depois, desaparece como o fumo deste cigarro, mas tudo o resto fica, sempre fica…


Excerto de um conto